Estudo aponta predominância masculina em artigos científicos retratados, refletindo desigualdades na academia

Pesquisa mostra que homens lideram a autoria em artigos retratados em revistas médicas, evidenciando desigualdades na academia.
Um estudo publicado em novembro na revista científica PLoS One revelou que homens lideram a autoria de artigos retratados em revistas médicas, um fenômeno que reflete desigualdades estruturais na academia. A pesquisa analisou 878 artigos retratados em 131 periódicos médicos de alto impacto até 15 de dezembro de 2024, abrangendo nove disciplinas como anestesiologia, oncologia e pediatria.
Análise detalhada da autoria revela disparidades significativas
Os dados indicam que 76,9% dos autores de artigos retratados são homens, enquanto 23,1% são mulheres. Quando se considera a primeira autoria, geralmente atribuída ao principal responsável pelo estudo, a presença masculina sobe para 83,5%, enquanto mulheres representam apenas 16,5%. A última autoria, associada a papéis de supervisão e liderança, é assinada por homens em 87,3% dos casos, contra 12,7% das mulheres.
Relação entre má conduta científica e predominância masculina
Além da predominância geral, homens também são maioria entre autores com artigos retratados por má conduta científica, representando 88,5% dos primeiros autores e 90,4% dos últimos autores neste contexto. Entre os pesquisadores com cinco ou mais retratações, 91,9% são homens. Esses números sugerem que a maior exposição dos homens a papéis de liderança também aumenta sua visibilidade nas retratações.
Metodologia e limitações do estudo
A equipe liderada por Paul Sebo, da Universidade de Genebra, utilizou dados da Retraction Watch Database e aplicou inteligência artificial para determinar o gênero binário dos autores a partir de seus nomes. Foram utilizados índices de confiabilidade de 60% e 70% para validar as análises. O estudo reconhece limitações, como possíveis imprecisões na inferência de gênero para nomes neutros ou não ocidentalizados, além da restrição a revistas médicas de alto impacto.
Desigualdades estruturais na academia influenciam resultados
Segundo o pesquisador, a menor representatividade feminina não se limita às retratações, mas reflete um contexto mais amplo de desigualdade na produção científica e na ocupação de posições de liderança. A interpretação mais parcimoniosa é que a predominância masculina nas retratações está inserida em um cenário estrutural onde as mulheres têm menor acesso a papéis de destaque, o que impacta diretamente na autoria e exposição a retratações.
Impactos e perspectivas para a comunidade científica
Esse estudo inédito destaca a necessidade de considerar fatores demográficos e sociais ao analisar padrões de retratação científica. Ele também abre espaço para futuras investigações sobre como desigualdades podem influenciar a qualidade da pesquisa e o ambiente acadêmico, além de estimular políticas para promover maior equidade de gênero nas ciências médicas.
Fonte: www1.folha.uol.com.br
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