Disparos no rio Papuri resultam em morte e ferimentos entre o povo hupda; entidade indígena solicita apuração oficial

Tiroteio envolvendo Exército no Amazonas deixa jovem indígena morto e outro ferido; povos de recente contato pedem investigação.
Um tiroteio envolvendo Exército brasileiro na Terra Indígena Alto Rio Negro, no Amazonas, resultou na morte de um jovem indígena do povo hupda e no ferimento de outro em um episódio ocorrido no dia 8 de janeiro. A região onde os fatos aconteceram é área protegida, localizada na fronteira entre Brasil e Colômbia, próximo ao rio Papuri.
Detalhes do confronto e relatos indígenas
Segundo relatos colhidos em reuniões com participação de lideranças indígenas, testemunhas e militares, os disparos feitos por soldados do 1º Pelotão Especial de Fronteira (PEF) somaram 52 balas de fuzil e duas de revólver. Os projéteis foram recolhidos e entregues às equipes responsáveis pela investigação dos acontecimentos.
Na noite do dia 8, quatro indígenas hupdas pescavam em duas duplas em diferentes pontos do rio Papuri. O grupo localizado na foz do rio foi atingido por disparos que, segundo os relatos, partiram do lado brasileiro. Dois conseguiram escapar, mas no dia seguinte um indígena foi encontrado ferido por militares do 1º PEF e outro, Sandro Barreto Andrade, de 19 anos, foi encontrado morto por moradores de comunidades próximas.
Povo hupda e contexto regional
Os hupdas são um povo de recente contato, estabelecendo relações com não indígenas somente a partir da segunda metade do século XX, vivendo em áreas remotas próximas à fronteira, com comunidades também no lado colombiano. Historicamente marginalizados, buscam maior protagonismo dentro do movimento indígena regional.
Versão do Exército e posicionamento das autoridades
O Exército nega que os disparos tenham atingido os indígenas e afirma que a ação foi uma reação legítima a uma agressão sofrida por militares durante patrulhamento de rotina, quando embarcações suspeitas de tráfico de drogas trafegavam no sentido Colômbia-Brasil. Segundo o Comando Militar da Amazônia, a embarcação agressora conseguiu fugir após o confronto.
Após o confronto, o indígena ferido foi atendido e transferido para Manaus, onde permanece internado em condição estável. O corpo de Sandro Barreto Andrade foi removido posteriormente, mas indígenas relataram demora e dificuldades no procedimento.
Movimentos indígenas e pedidos de investigação
Organizações como a Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN) preparam relatório para encaminhamento à Funai e ao Ministério Público, solicitando investigação sobre o episódio. A Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) lamentou a morte do jovem e afirmou que tem prestado assistência, atuando em escuta qualificada, mediação de conflitos e proteção territorial.
O Ministério da Saúde também lamentou o ocorrido e informou que o Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI) Alto Rio Negro realizou todas as comunicações aos órgãos competentes e acompanha o atendimento ao indígena ferido.
Importância da região e desafios
A área conhecida como Cabeça do Cachorro, onde está localizada a Terra Indígena Alto Rio Negro, é uma das regiões mais preservadas da Amazônia, abrangendo a fronteira com Colômbia e Venezuela. Abriga milhares de indígenas de 23 etnias diferentes, distribuídos em cerca de 750 comunidades.
O episódio expõe desafios na proteção dos povos indígenas de recente contato, na garantia de seus direitos e na condução de operações militares em áreas sensíveis, além da necessidade de investigações transparentes e eficazes para esclarecer responsabilidades.
Fonte: www1.folha.uol.com.br
Fonte: Folhapress





