Há um curioso e incômodo sentimento de déjà-vu rondando a política local. Como se o calendário tivesse avançado, mas o método tivesse ficado parado no tempo. Muda o ano, muda o alvo, mas a insistência é a mesma: utilizar uma concessão pública de rádio como instrumento de ataque político direto, não para informar, mas para desgastar adversários. Ontem era a prefeita. Hoje é Aliel. Amanhã, qualquer um que ameace o projeto de poder da vez, que hoje, diga-se de passagem, está mais para um tumulo caiado.
O problema é que a estratégia envelheceu mal. A rádio já não reina sozinha. O microfone perdeu o monopólio da narrativa e passou a ser apenas o ponto de partida. Na era das redes sociais, tudo o que é dito ali ganha nova vida fora dali, recortado, arquivado e devolvido ao público com resposta imediata. Quando bem usadas, as redes sociais não são apenas defesa. São bala de canhão. E costumam atravessar com facilidade discursos que se sustentam mais no volume do que nos fatos.
Em 2024, essa fórmula já produziu um resultado claro. O ataque reiterado, o tom acusatório e a tentativa de colar rótulos acabaram fortalecendo quem se pretendia enfraquecer. A então candidata Elizabeth Schmidt soube transformar o conteúdo que saía da rádio em material de confronto direto, com documentos, vídeos e respostas públicas. O efeito foi devastador para quem apostava na velha lógica do “fale que cola”. Não colou. E, ainda assim, o erro reaparece, agora direcionado ao deputado Aliel Machado, como se o eleitor tivesse memória curta ou como se o ambiente digital tivesse desaparecido de repente.
Esse pano de fundo ajuda a entender o desconforto atual. Enquanto o discurso tenta ocupar o espaço da moralidade, os fatos insistem em aparecer. Recentemente, Marcelo Rangel assinou um Acordo de Não Persecução Civil com o Ministério Público, encerrando investigação mediante ressarcimento e cumprimento de condições legais. O acordo é previsto em lei, juridicamente legítimo e absolutamente legal. Mas convém dizer, com alguma pedagogia, que ele não equivale a absolvição nem funciona como certificado de virtude. Trata-se de uma solução administrativa para um problema concreto, não de um selo de inocência plena.
Diante disso, seria razoável esperar que os irmãos Oliveira utilizassem a concessão pública de rádio que controlam para explicar esse fato com clareza ao seu ouvinte, sobretudo ao seu eleitorado. Explicar o que é um acordo dessa natureza, por que ele existe e quais são seus limites. Mas não é esse o caminho escolhido. Opta-se por deslocar o foco, atacar adversários e rotular Aliel Machado pelo suposto “crime” de ser petista, mesmo ele nunca tendo sido filiado ao Partido dos Trabalhadores. O rótulo pode ser útil para o discurso, mas não resiste ao menor esforço de checagem. E checagem, hoje, é esporte popular.
O resultado é um paradoxo político quase constrangedor. A rádio que se imagina formadora de opinião acaba funcionando como fornecedora involuntária de conteúdo para quem sabe usar as redes sociais. Assim como aconteceu em 2024, o ataque vira combustível, o discurso vira prova e a tentativa de desgaste se converte em engajamento do outro lado. Sem perceber, repete-se o erro que ajudou a eleger quem se queria derrotar.
Tudo isso remete a uma máxima antiga, frequentemente esquecida nos estúdios e nos gabinetes: tudo me é permitido, mas nem tudo me convém. Nem toda ação legal é politicamente inteligente. Nem toda narrativa repetida se transforma em verdade. E nada envelhece mais rápido do que a palavra dita sem lastro.
O mais impressionante é a incapacidade de aprendizado. A estratégia que falhou em 2024 reaparece em pleno 29 de dezembro de 2025, às portas de um novo ano eleitoral. Repete-se o método, repete-se o discurso e repete-se a aposta na confusão como ferramenta política. Como se o erro, quando insistido com convicção, pudesse virar acerto. Na boca de 2026, insistem em agir como se a narrativa fosse mais forte que os fatos. Mas contra fatos, convenhamos, não há argumentos. Nem rádio, nem discurso, nem narrativa que se sustente.






