O dia em que o Senado avisou que o rei está nu

O governo Lula acabou? Para quem olha apenas as agendas oficiais e os discursos em palanques, a resposta é um óbvio não. Mas para quem observa com um cuidado maior as engrenagens de Brasília, a resposta é mais complexa: o governo pode não ter acabado por completo, mas a maneira de enxergar e executar o famoso, velho e carcomido presidencialismo de coalizão, isso sim acabou. E o poder, ele por enquanto parece ter mudado de dono.

O poder em Brasília não muda de mãos de uma hora para outra. Ele escorre. Escorre devagar, silencioso, sem alarde oficial. Um dia você manda; no outro, descobre que suas ordens viraram sugestões que ninguém faz questão de seguir. E o pior: ninguém lhe avisa que a cadeira encolheu.

A rejeição de Jorge Messias para o Supremo não é um tropeço isolado. É um sintoma. Um daqueles diagnósticos que chegam tarde demais, quando o chazinho da vovó já não faz nem cócegas na doença. Pela primeira vez em mais de um século, o Senado disse um não seco a um presidente na escolha de um ministro do STF. Não foi um detalhe. Foi um recado escrito em letras garrafais no placar de 42 a 34. O governo ficou a ver navios quando o resultado apareceu no placar do Senado. Diria mais, ficou atônito, como muita gente que não acompanha de perto o dia a dia de Brasília.

E aqui começa o erro de quem insiste em nadar no rasinho. Não é sobre o Messias. Se fosse sobre o nome dele, ele teria passado. Já vimos passar gente muito mais frágil, polêmica e improvável por aquelas sabatinas de teatro. O que mudou não foi o indicado; foi o ambiente. Foi o cheiro do poder.

Governabilidade não é palavra bonita para enfeitar manual de ciência política. É uma equação bruta de soma de votos. Sem isso, o governo vira apenas um amontoado de boas intenções. E intenção, caro leitor, não paga conta no Congresso e nem enche o tanque da governabilidade.

O que vimos ali foi o Senado, sob a batuta de Davi Alcolumbre, foi um lembrete ao Planalto sobre quem é que realmente dita o ritmo do samba hoje na política brasileira. O Congresso avisou que não adianta só liberar emenda, distribuir cargo e oferecer jantar com vinho caro. Agora, o Planalto precisa pedir permissão. E quem precisa pedir licença para tudo não está governando; está apenas ocupando espaço.

O governo Lula III nasceu com o freio de mão puxado. Foi eleito com a menor margem da história e encara um Legislativo que não é apenas conservador, mas que aprendeu a exercer sua autonomia sem depender das migalhas do Executivo. No primeiro ano, a ilusão de controle ainda convenceu alguns. Mas aquela força era inércia, o resto de um motor que ainda funcionava no automático.

Depois, vieram os dedos na ferida: o Congresso derrubando decretos, reescrevendo pautas e impondo a própria agenda. Agora, chegaram ao ápice de vetar uma indicação ao Supremo. Isso não é uma crise institucional, é a democracia testando seus freios e contrapesos. É o Legislativo ocupando o lugar que a Constituição lhe deu, mas que o presidencialismo de coalizão muitas vezes tentou eclipsar.

O presidencialismo brasileiro sempre foi um teatro bem ensaiado: o presidente indica, o Senado faz um barulho moral e confirma. Quando essa engrenagem quebra, o sistema não falhou. Ele apenas revelou que o Congresso decidiu exercer sua prerrogativa de dizer não. Lula, que não é iniciante nesse moedor de gente, sabe que o jogo agora é outro.

A ideia de indicar uma mulher agora não é uma escolha simbólica de quem busca justiça social; é um cálculo político de quem precisa de uma ponte. Rejeitar uma segunda vez teria um custo de imagem; aprovar seria o caminho natural da harmonia. Mas o fato real continua lá: hoje, o Executivo não indica quem quer, mas quem consegue construir consenso dentro de um Senado independente.

Essa postura do Congresso não deve ser vista como uma afronta, mas como o exercício da independência dos poderes. O desafio é que autonomia exige diálogo, e independência exige respeito às maiorias. O que está em jogo não é só uma toga no STF, é a capacidade do governo de entender que, em uma democracia plena, o Legislativo não é um puxadinho do Planalto. Governar não é fazer discurso bonito em palanque; é construir maiorias no plenário.

O governo precisa parar de olhar para o próprio umbigo e fazer a pergunta que realmente dói: quantos votos ainda são fruto de convicção? E, mais importante: quantos se perderam na falta de articulação? Em Brasília, a derrota nunca vem desacompanhada. Ela traz um aviso. O problema é que, quase sempre, quando o aviso chega, o poder de ditar as regras já foi embora faz tempo.