Santo de casa

Há um velho ditado que diz que santo de casa não faz milagre. Talvez o problema nunca tenha sido o santo. Talvez, muitas vezes, tenha sido a própria casa. O Paraná acaba de alcançar um marco histórico. Pela primeira vez, tornou-se o quinto maior colégio eleitoral do Brasil, com mais de 8,6 milhões de eleitores. Apenas São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Bahia possuem hoje mais eleitores que o nosso estado. Dentro desse cenário, Ponta Grossa continua ocupando uma posição privilegiada. São mais de 258 mil eleitores, o quarto maior eleitorado do Paraná. Não somos uma cidade periférica na política estadual. Somos uma das vozes mais importantes do estado. Mas será que nos enxergamos dessa forma? Quando pensamos em deputados, muita gente imagina que eles constroem hospitais, fazem viadutos ou asfaltam ruas. Na realidade, essas obras são executadas pelos governos. O papel do Parlamento é outro: elaborar leis, fiscalizar o Poder Executivo e participar da definição do orçamento público. É justamente aí que mora a força da representação. Todos os anos, deputados estaduais e federais discutem o destino de bilhões de reais. Além de votar o orçamento, contam com instrumentos como as emendas parlamentares para indicar recursos destinados a hospitais, escolas, entidades sociais, pavimentação, equipamentos públicos e tantas outras demandas apresentadas pelos municípios. O dinheiro não nasce por acaso em uma cidade. Antes de chegar ao município, ele passa pela mesa onde as prioridades são discutidas. Por isso que representação importa. Não porque um deputado seja capaz de resolver todos os problemas de uma cidade, mas porque quem conhece uma realidade tende a enxergar suas necessidades com mais clareza. Quem vive os Campos Gerais sabe onde faltam leitos, quais rodovias precisam de atenção, quais instituições fazem a diferença para a comunidade e quais obras deixaram de ser promessa para se tornar necessidade. Isso não significa que todo candidato local será um bom parlamentar, nem que alguém de outra região não possa representar Ponta Grossa com competência. O voto continua exigindo critério, preparo, trabalho e compromisso. Mas a história mostra que acreditar na própria força costuma produzir resultados. Em 2022, Ponta Grossa demonstrou exatamente isso. As urnas revelaram que a cidade e a região tinham musculatura política suficiente para eleger três deputados federais: Aliel Machado, Jocelito Canto e Sandro Alex. Mais do que nomes, aquele resultado evidenciou uma verdade simples: quando a cidade acredita em si, sua voz ganha volume. No passado, também já ocupamos quatro cadeiras simultaneamente na Assembleia Legislativa. Não era apenas motivo de orgulho. Era capacidade de articulação, presença política e força para defender os interesses da nossa região. Política é, antes de tudo, uma disputa por prioridades. Regiões que conseguem formar lideranças fortes ocupam mais espaço nas decisões, disputam mais recursos e fazem suas necessidades serem ouvidas com maior frequência. Agora que o Paraná se tornou o quinto maior colégio eleitoral do Brasil, esse debate ganha ainda mais importância. Se o estado aumentou seu peso político no cenário nacional, cabe aos Campos Gerais decidir qual será o seu peso dentro do Paraná. No fim das contas, talvez o velho ditado precise ser revisto. Santo de casa faz, sim, milagres. Mas, antes disso, precisa que a própria casa acredite nele.

Onde a vida acontece

Poucas notícias conseguem agradar tanta gente ao mesmo tempo quanto uma redução de impostos. Quando o Governo do Paraná anunciou a diminuição da alíquota do IPVA de 3,5% para 1,9%, a recepção foi imediata. O boleto ficou menor, o orçamento doméstico ganhou algum fôlego e milhões de proprietários de veículos passaram a pagar menos por algo que já fazia parte da rotina anual. Num país acostumado a ouvir falar em aumento de tributos, uma notícia que caminha na direção contrária costuma encontrar poucos adversários. A medida também ganhou argumentos econômicos nesses primeiros meses de 2026. Dados divulgados pelo Detran-PR apontaram crescimento nos emplacamentos e aumento na transferência de veículos de outros estados para o Paraná. Para o governo estadual, a redução do imposto ajudou a tornar o Estado mais competitivo e atrativo para registrar veículos. A notícia parecia boa. E era mesmo. Mas as decisões tomadas pelos governos nem sempre encerram sua trajetória no dia em que são anunciadas. Existe uma frase atribuída ao ex-governador Franco Montoro que atravessou décadas sem perder a atualidade: ninguém vive na União ou no Estado. As pessoas vivem no município. É no município que a vaga na creche precisa existir. É no município que a unidade de saúde abre as portas. É no município que a rua recebe asfalto. É no município que o caminhão do lixo passa. É no município que a população procura respostas quando algo não funciona. Por isso, quando uma regra tributária muda, seus efeitos costumam aparecer justamente onde a vida acontece. Metade de tudo o que é arrecadado com o IPVA pertence aos municípios onde os veículos estão registrados. Durante muitos anos, essa foi uma receita importante para ajudar as cidades a financiar serviços, investimentos e parte da estrutura pública que a população utiliza todos os dias. Os primeiros balanços de 2026 começaram a mostrar como essa história continuaria.Em Ponta Grossa, a Prefeitura informou uma redução próxima de R$ 18 milhões nos repasses do IPVA entre janeiro e abril. O valor representa uma queda superior a 22% em comparação com o mesmo período do ano passado. Em Maringá, os números apresentados pela administração municipal apontaram impacto próximo de R$ 46 milhões nas receitas associadas a transferências e alterações tributárias. Entre os fatores destacados pela prefeitura está a redução dos recursos provenientes do IPVA. A boa notícia para o motorista chegou acompanhada de uma preocupação para quem fecha as contas nos municípios. Afinal, o boleto ficou menor. A conta de energia da escola, não. O IPVA diminuiu. O custo do asfalto, não. O imposto caiu. A demanda por consultas, vagas em creches, medicamentos e manutenção urbana continuou exatamente onde estava. Diante desse cenário, cada prefeitura começou a procurar suas próprias respostas.Maringá ampliou a aposta na arrecadação própria e discute medidas para estimular o setor imobiliário. Ponta Grossa reforçou ações de combate à inadimplência e recuperação de créditos tributários. Não porque as cidades estejam em crise. Mas porque a administração pública funciona assim. Quando uma receita diminui, alguém precisa encontrar uma forma de preencher o espaço que ela ocupava. O motorista recebeu uma notícia que queria ouvir. Os prefeitos receberam uma notícia que precisavam administrar. Dois personagens em lugares diferentes da mesma históriacriada pelo governo do estado. E talvez seja por isso que Franco Montoro continue tão atual tantos anos depois. Ninguém vive na União. Ninguém vive no Estado. As pessoas vivem no município. E foi justamente ali, no lugar onde a vida acontece, que os efeitos do novo IPVA começaram a aparecer primeiro.

Quem constrói o crescimento?

Existe uma diferença enorme entre crescimento econômico e crescimento urbano. Às vezes ela passa despercebida porque os números, quando aparecem em manchetes, costumam chegar resumidos demais: “A cidade abriu cinco mil vagas” ou “O município perdeu trezentos empregos”. Mas a economia raramente cabe em uma única frase. Os dados do Novo CAGED, do Ministério do Trabalho e Emprego, permitem uma leitura muito mais profunda porque registram admissões, desligamentos, saldo e o estoque de empregos formais. Vale uma explicação rápida sobre essa dinâmica: admissões representam as novas contratações; desligamentos são as saídas; o saldo é a diferença matemática entre os dois; e o estoque mostra quantas pessoas efetivamente permanecem empregadas ao final do período. Isso significa que olhar apenas para o saldo conta apenas parte da história. Quando observamos Ponta Grossa entre 2020 e março de 2026, constatamos que o estoque total de empregos formais saltou de 92.746 para 110.357 trabalhadores, um acréscimo de 17.611 postos de trabalho, o que representa um crescimento próximo de 19%. Traduzindo para a linguagem da vida real, não estamos vendo apenas uma troca de cadeiras entre um setor e outro, estamos vendo mais gente ocupando mais cadeiras. Quando a fotografia é ampliada, cada setor parece assumir um papel específico dentro dessa engrenagem complexa. A agropecuária surge como a base silenciosa e estável desse sistema. A indústria aparece como o grande motor de crescimento, ultrapassando a marca de 22 mil empregos formais. O comércio responde como o espelho direto do consumo, superando os 26 mil trabalhadores contratados. Por fim, os serviços se tornaram praticamente a circulação sanguínea da cidade, concentrando mais de 52 mil vínculos formais, o que abocanha quase metade de todos os empregos de Ponta Grossa. Até aqui, as estatísticas parecem apenas contar uma história linear de sucesso. Mas existe uma pergunta crucial que talvez esteja faltando nesse debate: crescimento para onde? Porque o trabalho não termina no portão da empresa. No final do expediente, quem ocupa aquela cadeira entra no carro, no ônibus ou na moto e leva consigo uma necessidade inteira de cidade. Esse cidadão precisa de casa, precisa de rua, precisa de escola, de farmácia e de infraestrutura. É exatamente aqui que entra um setor frequentemente tratado apenas como mais um número frio na tabela do CAGED, mas que é, na verdade, um dos pilares mais importantes de todo esse processo: a construção civil. Tratá-la como mera coadjuvante é um equívoco econômico brutal. Antes do terno do executivo na indústria ou do jaleco do médico no setor de serviços, alguém precisou vestir o capacete. Alguém teve que abrir o terreno, erguer as paredes, desenhar as estruturas, puxar as instalações e transformar o concreto bruto em espaço urbano habitável. Alguns observam as oscilações e os saldos negativos registrados pela construção civil em determinados períodos, especialmente entre 2021 e 2022, e concluam apressadamente que ali existiu fraqueza. A leitura correta, no entanto, pode e deve ser outra. A construção responde ao crédito, aos juros, à confiança econômica e aos ciclos naturais de investimento, mas ela responde principalmente à velocidade com que a cidade decide crescer. Uma obra nunca gera apenas uma obra. Ela movimenta simultaneamente engenheiros, arquitetos, eletricistas, pintores, corretores, cartórios, transportadoras, lojas de materiais, serviços técnicos e o varejo. Em economia, isso recebe o nome de cluster. Traduzindo para o cotidiano, uma construção não levanta apenas paredes; ela levanta a atividade econômica de tudo o que está ao seu redor. Por isso, a construção civil funciona menos como um setor isolado e mais como o termômetro real do próprio crescimento urbano. Nós comemoramos, com total razão, cada nova empresa que anuncia sua chegada à cidade. As fotografias oficiais são bonitas, repletas de discursos, fitas sendo cortadas e autoridades sorrindo. Mas a vida real acontece depois da fotografia. Ela acontece quando o trabalhador sai do seu turno e volta para casa, ou tenta voltar para casa. Ela acontece quando uma família procura um novo apartamento para morar, quando uma criança precisa de uma escola próxima ou quando uma rua precisa passar a existir antes mesmo de o bairro nascer. Crescimento, no fim das contas, nunca foi apenas uma planilha de estatística; crescimento sempre teve nome, endereço e gente dentro dele. O ocupante da cadeira do emprego não mora dentro da fábrica ou do “open mall”. Ao final do seu turno, ele pega a mochila e vai procurar cidade, e alguém precisa ter construído essa cidade antes. A estrutura urbana precisa caber no tamanho do próprio crescimento econômico. Talvez esteja aí uma reflexão urgente e indispensável para o poder público. O crescimento não acontece apenas no dia em que uma grande empresa anuncia investimentos milionários ou corta a fita de inauguração. Ele continua acontecendo, silenciosamente, todos os dias depois disso. Continua quando as famílias procuram onde morar, quando novos bairros começam a surgir e quando a infraestrutura urbana precisa alcançar pessoas que antes não estavam ali. Planejar o crescimento não significa, de forma alguma, dificultá-lo; significa organizá-lo. Reduzir entraves desnecessários, desburocratizar processos engessados, oferecer segurança jurídica e dar previsibilidade para quem investe e arrisca capital não representa privilégio para um setor específico. Representa, sim, criar condições reais para que a cidade consiga acompanhar a sua própria velocidade de expansão. Uma indústria pode gerar os empregos, o comércio pode transformar esse crescimento em consumo e os serviços podem fazer a cidade pulsar, mas nenhuma cidade permanece de pé por muito tempo quando esquece das suas próprias fundações.

Promoção: leve três senadores pelo preço de dois

O eleitor do Paraná vai às urnas em 2026 com uma certeza na cabeça: vai escolher dois senadores. É o que diz a campanha, é o que aparece na urna, é o que todo mundo repete. Mas a política brasileira, essa senhora que adora as letras miúdas, preparou um daqueles anúncios de fim de feira, quando o estoque está vencendo e o berrante do “pague dois, leve três” serve para esconder a fruta machucada no fundo do cesto. Você vota em dois, mas o sistema te empurra três. E o terceiro, veja que ironia, entra pela porta da cozinha sem ter gasto um centavo de sola de sapato ou uma gota de suor no calçadão. O jogo está na cara e só não vê quem está distraído com videozinhos lacradores em redes sociais. Duas vagas estão no balcão porque Flávio Arns e Oriovisto Guimarães vão pendurar as chuteiras. Até aí, nada de novo sob o sol. O veneno, a verdadeira casca de banana que jogaram no meio da calçada, está na terceira cadeira: a de Sergio Moro. O ex-juiz foi eleito em 2022 com contrato assinado até 2030, mas já olha para o Palácio Iguaçu com a fome de quem acha o Senado  apertado demais para o tamanho de seu ego. Se ele levar o governo, o seu voto de senador vira papel de embrulhar peixe. Não dá para dizer que é surpresa. O roteiro é velho e o personagem não aguenta o final do filme. Abandonou a toga pelo palanque, largou o ministério antes de o café esfriar e agora ensaia o abandono do Senado antes mesmo da metade do caminho. Não é imprevisto, é método. É o vício de quem usa o cargo público como degrau de escada, sempre visando o degrau mais alto, ou o que impulsione para algo maior. Pisa, sobe e pula para o próximo, sem olhar para o degrau que ficou para trás. E quem fica com o resto da xepa? O suplente. Essa figura fantasmagórica que ganha um império de verbas, assessores e poder político sem nunca ter encarado o moedor de gente que é uma campanha de verdade. É o senador brinde, o bônus indesejado que vem escondido no pacote. O eleitor vota no rosto famoso da TV, mas leva para casa o sujeito que vai mandar na sua vida por quatro anos sem ter pedido licença a ninguém. Na real, estamos entregando uma chave de ouro para quem nem sequer foi testado. Está na lei? Está. Mas faz sentido tratar o Senado como trampolim? Faz sentido aceitar que o mandato seja só um quebra-galho para projetos pessoais? Uma coisa é mudar de rumo porque a estrada acabou. Outra é pular do carro em movimento só porque viu uma Ferrari passando ao lado. Quando o abandono vira hábito, o erro deixa de ser do político e passa a ser nosso, que votamos como se o suplente fosse um detalhe irrelevante no rodapé da página. Em 2026, o Paraná pode eleger dois senadores e levar três: dois pelo voto e um pela conveniência de quem decidiu que o compromisso com o povo tem data de validade. Fiz questão de não citar os nomes dos suplentes de Moro aqui. De propósito. Quero que você faça o teste agora. Sem consultar o oráculo do celular, você sabe quem são eles? Se a memória falhou, não se culpe. O sistema é desenhado exatamente para você não lembrar. Enquanto você olha para o brilho da estrela principal, o figurante se prepara para virar dono da cena. No teatro da política, o ingresso é caro e, no final, quem paga a conta da peça somos todos nós..

O dia em que o Senado avisou que o rei está nu

O governo Lula acabou? Para quem olha apenas as agendas oficiais e os discursos em palanques, a resposta é um óbvio não. Mas para quem observa com um cuidado maior as engrenagens de Brasília, a resposta é mais complexa: o governo pode não ter acabado por completo, mas a maneira de enxergar e executar o famoso, velho e carcomido presidencialismo de coalizão, isso sim acabou. E o poder, ele por enquanto parece ter mudado de dono. O poder em Brasília não muda de mãos de uma hora para outra. Ele escorre. Escorre devagar, silencioso, sem alarde oficial. Um dia você manda; no outro, descobre que suas ordens viraram sugestões que ninguém faz questão de seguir. E o pior: ninguém lhe avisa que a cadeira encolheu. A rejeição de Jorge Messias para o Supremo não é um tropeço isolado. É um sintoma. Um daqueles diagnósticos que chegam tarde demais, quando o chazinho da vovó já não faz nem cócegas na doença. Pela primeira vez em mais de um século, o Senado disse um não seco a um presidente na escolha de um ministro do STF. Não foi um detalhe. Foi um recado escrito em letras garrafais no placar de 42 a 34. O governo ficou a ver navios quando o resultado apareceu no placar do Senado. Diria mais, ficou atônito, como muita gente que não acompanha de perto o dia a dia de Brasília. E aqui começa o erro de quem insiste em nadar no rasinho. Não é sobre o Messias. Se fosse sobre o nome dele, ele teria passado. Já vimos passar gente muito mais frágil, polêmica e improvável por aquelas sabatinas de teatro. O que mudou não foi o indicado; foi o ambiente. Foi o cheiro do poder. Governabilidade não é palavra bonita para enfeitar manual de ciência política. É uma equação bruta de soma de votos. Sem isso, o governo vira apenas um amontoado de boas intenções. E intenção, caro leitor, não paga conta no Congresso e nem enche o tanque da governabilidade. O que vimos ali foi o Senado, sob a batuta de Davi Alcolumbre, foi um lembrete ao Planalto sobre quem é que realmente dita o ritmo do samba hoje na política brasileira. O Congresso avisou que não adianta só liberar emenda, distribuir cargo e oferecer jantar com vinho caro. Agora, o Planalto precisa pedir permissão. E quem precisa pedir licença para tudo não está governando; está apenas ocupando espaço. O governo Lula III nasceu com o freio de mão puxado. Foi eleito com a menor margem da história e encara um Legislativo que não é apenas conservador, mas que aprendeu a exercer sua autonomia sem depender das migalhas do Executivo. No primeiro ano, a ilusão de controle ainda convenceu alguns. Mas aquela força era inércia, o resto de um motor que ainda funcionava no automático. Depois, vieram os dedos na ferida: o Congresso derrubando decretos, reescrevendo pautas e impondo a própria agenda. Agora, chegaram ao ápice de vetar uma indicação ao Supremo. Isso não é uma crise institucional, é a democracia testando seus freios e contrapesos. É o Legislativo ocupando o lugar que a Constituição lhe deu, mas que o presidencialismo de coalizão muitas vezes tentou eclipsar. O presidencialismo brasileiro sempre foi um teatro bem ensaiado: o presidente indica, o Senado faz um barulho moral e confirma. Quando essa engrenagem quebra, o sistema não falhou. Ele apenas revelou que o Congresso decidiu exercer sua prerrogativa de dizer não. Lula, que não é iniciante nesse moedor de gente, sabe que o jogo agora é outro. A ideia de indicar uma mulher agora não é uma escolha simbólica de quem busca justiça social; é um cálculo político de quem precisa de uma ponte. Rejeitar uma segunda vez teria um custo de imagem; aprovar seria o caminho natural da harmonia. Mas o fato real continua lá: hoje, o Executivo não indica quem quer, mas quem consegue construir consenso dentro de um Senado independente. Essa postura do Congresso não deve ser vista como uma afronta, mas como o exercício da independência dos poderes. O desafio é que autonomia exige diálogo, e independência exige respeito às maiorias. O que está em jogo não é só uma toga no STF, é a capacidade do governo de entender que, em uma democracia plena, o Legislativo não é um puxadinho do Planalto. Governar não é fazer discurso bonito em palanque; é construir maiorias no plenário. O governo precisa parar de olhar para o próprio umbigo e fazer a pergunta que realmente dói: quantos votos ainda são fruto de convicção? E, mais importante: quantos se perderam na falta de articulação? Em Brasília, a derrota nunca vem desacompanhada. Ela traz um aviso. O problema é que, quase sempre, quando o aviso chega, o poder de ditar as regras já foi embora faz tempo.

O som da irrelevância

Tem coisas que a gente escuta e, na hora, já entende que não eram para ter saído dali. Não porque sejam inéditas. Não são. A política está cheia de bastidores mal resolvidos, de vaidades infladas e de gente que confunde função pública com extensão do próprio ego. Mas existe uma regra silenciosa que sustenta esse teatro todo: certas coisas só funcionam enquanto permanecem em voz baixa. Em Ponta Grossa, alguém esqueceu disso. O áudio vazou. E, com ele, não vazaram apenas palavras. Vazou uma mentalidade. Vazou uma compreensão quase caricata do que é exercer poder.Ali, no ambiente que deveria ser de responsabilidade, viu-se algo mais próximo de uma reunião de Grêmio Estudantil de escola primária. Uma espécie de conselho de turma onde se distribuem tarefas, se combinam estratégias e se acredita, com uma segurança quase ingênua, que o mundo lá fora não está olhando. Foi constrangedor. Não pela ilegalidade em si, que cabe aos órgãos competentes avaliar. Mas pelo amadorismo. Pela sensação de que, enquanto se falava, ninguém ali tinha plena consciência do peso do que estava dizendo. Era política de faz de conta.Uma encenação em que o cargo vira fantasia, a equipe vira elenco e a gestão vira cenário. Um quarto de brinquedos bem montado, com cargos, funções e planos, onde se acredita que mandar é apenas uma questão de vontade. Só que não é. E o mais cruel da política não é quando alguém erra. É quando alguém erra achando que está arrasando. Veio então o choque com a realidade. Notas oficiais, exonerações, indignação pública. O tipo de reação que não corrige o erro, mas tenta, ao menos, limitar o dano. Tudo muito rápido. Tudo muito sério. Tudo muito adulto, de repente. Mas deixa eu te contar uma coisa. Como essa coluna é semanal, inocentemente acreditei que esse seria o tema local da semana. Ledo engano quando se acompanha política em ano eleitoral. Porque, enquanto em Ponta Grossa ainda se tentava entender como recolher os cacos de um áudio constrangedor, o Paraná já estava em outro nível de conversa. Sem microfone aberto. Sem improviso. Sem ingenuidade. Quase ao mesmo tempo em que o episódio ganhava repercussão, o governador Ratinho Junior fazia um movimento que não depende de justificativa pública imediata. Escolhia o nome que pretende ver sentado no Palácio Iguaçu. E o escolhido foi Sandro Alex. Sim, o mesmo nome citado no áudio. O mesmo nome que, em um ambiente, parecia alvo de um plano meio improvisado. E que, em outro, era tratado como peça central de um projeto de poder. É aqui que a diferença deixa de ser sutil.De um lado, alguém organizando uma campanha como quem monta um grupo de trabalho de última hora, acreditando que liderança se impõe pelo tom de voz. Do outro, um sistema político inteiro operando com critérios que não cabem em áudio vazado. Enquanto um lado brincava de comando, o outro exercia comando de verdade.Enquanto uns ainda tentavam entender como manter influência mesmo fora da cadeira, outros já decidiam quem vai ocupar a próxima. E talvez essa seja a parte mais incômoda de tudo. O áudio não expôs apenas um erro. Expôs irrelevância. Porque, no exato momento em que alguém acreditava estar desenhando o jogo, o jogo já estava sendo decidido em outro lugar, por outras pessoas, em outra lógica. Sem consulta. Sem aviso. Sem necessidade de incluir quem estava, naquele instante, falando demais e entendendo de menos. No fim, a política tem um jeito muito próprio de colocar cada um no seu lugar. Alguns falam. Outros decidem. E existe uma distância enorme entre essas duas coisas.

Entre o desejo e o orçamento

Há algo que precisa ser dito antes de qualquer análise, o servidor público merece respeito. É ele quem sustenta o funcionamento diário da cidade, quem está na escola, na unidade de saúde, no atendimento direto à população. É legítimo que se organize, que proteste, que vá às ruas. Reivindicar direitos não é exagero, é parte do jogo democrático. Quando uma categoria se mobiliza, há ali um sinal claro de que algo precisa ser ouvido. Também é preciso reconhecer que a busca por valorização é justa. Nenhuma categoria quer ver seu salário perder poder de compra ao longo do tempo, nenhuma categoria trabalha esperando ficar para trás. Pedir melhores condições, discutir remuneração, pressionar por avanços, tudo isso faz parte de uma sociedade que se movimenta. O protesto, portanto, não é o problema, muitas vezes é o início da solução. Mas é exatamente aqui que a conversa precisa ganhar profundidade. Porque o que está sobre a mesa não é um pedido qualquer, o que se pede é 15% sobre as tabelas salariais e 50% no vale-refeição. E esses números não podem ser analisados apenas pelo sentimento, eles precisam ser confrontados com a realidade. A inflação oficial fechou 2025 em 4,26%. Nos últimos 12 meses até fevereiro de 2026, gira em torno de 3,81%. Quando se fala em 15% sobre as tabelas salariais e 50% no vale-refeição, não se está falando de reposição inflacionária, se está falando de algo muito acima disso. Se está falando de um salto, não de uma correção. E salto, na vida real, precisa de sustentação. Porque reajustes não nascem do desejo, nascem da capacidade. No setor privado, as negociações recentes giram na casa de 4% a 6%, com algum ganho real tímido. Não há, no mercado, uma onda de 15% sobre as tabelas salariais, muito menos de 50% no vale-refeição. Não porque o trabalhador não mereça, mas porque a conta simplesmente não fecha nesses termos. É por isso que insistir nos números é importante. 15% sobre as tabelas salariais e 50% no vale-refeição não cabem na mesma lógica de uma inflação que mal chega a 4%. São grandezas diferentes, são realidades distintas. Tratar uma como se fosse a outra é simplificar um problema que é, por natureza, complexo. E é nesse ponto que a discussão deixa de ser apenas sobre servidores e passa a ser sobre cidade. Porque, enquanto se discute 15% sobre as tabelas salariais e 50% no vale-refeição, a diarista segue negociando a passagem de ônibus com a patroa, o lixeiro cumpre sua rota sem reajuste de dois dígitos, o varredor de rua trabalha sob sol e chuva, e a caixa de supermercado, na escala 6×1, trabalha domingos e feriados por aumentos que mal acompanham a inflação. Nenhum deles reivindica 15% sobre as tabelas salariais, nenhum deles trabalha com a expectativa de 50% no vale-refeição. Mas são exatamente eles que, no fim, pagarão essa conta. Porque a conta pública não nasce do nada, ela sai do imposto, do consumo, da cidade real. E, diferente do discurso, ela sempre fecha, só nunca fecha para quem menos pode. E talvez o problema não seja pedir demais, seja esquecer quem paga.

O passe livre chegou. E agora a conta resolveu aparecer.

Há ideias que são irresistíveis na oposição. São leves, generosas, quase poéticas. Cabem bem em discursos, rendem aplausos fáceis e têm a vantagem de não exigir cálculo na ponta do lápis. O passe livre estudantil foi, por muito tempo, uma dessas ideias. Parecia simples. Bastava querer. Pois quiseram.A prefeita Elizabeth Schmidt decidiu implementar. E aqui cabe o registro justo, daqueles que às vezes a política evita fazer. Tirar uma proposta do palanque e colocá-la para funcionar exige mais do que discurso. Exige decisão.E decisão, como se sabe, costuma vir acompanhada de consequências. Porque no instante em que o passe livre deixa de ser promessa e passa a ser política pública, ele sofre uma transformação curiosa. Continua bonito, continua relevante, continua necessário. Mas ganha peso. Um peso que não aparece na propaganda, mas que aparece, inevitavelmente, na conta. E toda conta, por definição, precisa ser paga.O ônibus não ficou mais leve. O diesel não resolveu colaborar. Os pneus continuam custando o mesmo. O sistema segue funcionando com a mesma necessidade de sempre. A única coisa que mudou foi o caminho do pagamento.Saiu da catraca. Entrou no orçamento. É nesse momento que a realidade costuma fazer uma pequena visita, sem pedir licença. E é também nesse momento que o silêncio começa a dizer mais do que os discursos.A oposição, que durante tanto tempo defendeu o passe livre com entusiasmo quase pedagógico, agora tem diante de si uma oportunidade rara. Explicar. Detalhar. Mostrar como a conta fecha. Traduzir a ideia em estrutura.Mas explicar, convenhamos, nunca foi a parte mais popular da política. Propor é leve. Sustentar exige fôlego. E a política brasileira, com sua conhecida afeição por boas intenções, nem sempre demonstra grande intimidade com planilhas.O fato é que o passe livre não tornou o transporte gratuito. Ele apenas sofisticou o pagamento. Tornou-o menos visível, mais diluído, mais elegante até. Mas ainda assim absolutamente real. A cidade inteira passa a participar da conta. Inclusive quem não utiliza o sistema. Inclusive quem talvez nunca vá utilizar.E está tudo bem. Desde que isso seja dito com clareza. Porque maturidade pública não está em fingir que o custo desapareceu. Está em reconhecer que ele foi redistribuído. No fim, o passe livre não resolve o problema do transporte. Ele resolve uma parte importante dele. E cria outra, igualmente importante, que é a de sustentá-lo ao longo do tempo.O que antes era um discurso agora é uma responsabilidade compartilhada. E talvez essa seja a parte menos confortável da história. Mas, convenhamos, ideias são ótimas. Até o momento em que precisam funcionar. O passe livre chegou. E agora a conta resolveu aparecer.

Sem os anéis e sem os dedos

Há algo de profundamente revelador nas desistências políticas. Elas raramente dizem respeito apenas ao que se anuncia. Falam mais sobre o que não foi feito, sobre o que não foi percebido e, sobretudo, sobre o que não foi lido a tempo.A decisão de Ratinho Júnior de não disputar a Presidência da República veio embalada em argumentos corretos, quase irretocáveis.Compromisso com o mandato, responsabilidade com o Estado do Paraná, respeito ao eleitor. Tudo no lugar. Tudo organizado. Tudo, inclusive, previsível e mais alinhado do que as dobras de suas camisas brancas. Mas a política, como se sabe, não é o território do que está no papel. É o território do que acontece depois que o papel é dobrado.E o que aconteceu depois foi um silêncio curioso de um lado e uma satisfação discreta do outro. Aliados de Flávio Bolsonaro classificaram o movimento como erro de cálculo. Não de forma genérica, mas com endereço certo. Para esses interlocutores, Ratinho cometeu um equívoco estratégico ao recusar a possibilidade de compor como vice em uma chapa presidencial com o próprio Flávio Bolsonaro.A avaliação é direta. Ao rejeitar a proposta colocada nas tratativas conduzidas pelo entorno do PL, Ratinho teria subestimado a reação do partido e perdido a oportunidade de inserir o PSD no centro real da disputa. Em vez de ampliar sua presença no tabuleiro nacional, acabou abrindo espaço para um cenário mais favorável ao próprio campo bolsonarista.Na política, quando o adversário não apenas critica, mas descreve com precisão onde você errou, convém prestar atenção.Revelou-se, então, um primeiro ponto incômodo. O espaço que se imagina disponível ao centro político talvez nunca tenha sido o lugar que o PSD de Ratinho, Caiado e Leite quis, de fato, ocupar. Era mais uma ideia confortável do que uma realidade concreta. Um lugar onde todos gostariam de estar, mas onde poucos conseguem permanecer. O centro, no Brasil, tem sido menos um território de ocupação e tão somente uma fonte de votos.Diante disso, havia um caminho possível. Não insistir em ocupar um espaço abstrato, mas reposicionar-se dentro do jogo real. A política brasileira não se organiza mais em torno de possibilidades elegantes, mas de forças concretas. E, nesse cenário, a composição como vice não seria recuo. Seria estratégia. Permanência. Inserção.Optou-se, no entanto, por outro caminho. Nem disputa, nem composição. Uma espécie de isolamento educado, desses que não criam inimigos, mas também não constroem pontes. A elegância, nesse caso, parece ter custado presença.A sequência das decisões aprofunda a leitura. Permanecer no governo até o fim do mandato, sem disputar sequer o Senado, reduz drasticamente a inserção nacional no momento em que o país reorganiza suas forças. É uma retirada em etapas, quase pedagógica, como se a política pudesse ser pausada e retomada mais adiante, no tempo conveniente. Mas a política não é um livro que se fecha com marcador. Quando se volta, a página já é outra.Talvez, no fundo, haja um reconhecimento silencioso de um problema anterior. A ausência de uma sucessão sólida no Paraná. Após quase oito anos de governo, os nomes disponíveis para dar continuidade ao projeto não parecem carregar o mesmo peso. São candidaturas que enfrentariam dificuldades reais diante de figuras como Sergio Moro e até Requião Filho. A tentativa de proteger o território local, portanto, surge como uma necessidade. Mas também como um custo.Porque, ao concentrar esforços na própria sucessão, restringe-se o alcance nacional. Troca-se projeção por contenção. E nem sempre essa troca garante segurança. Há casos em que se perde nos dois lados. Nem se consolida o estado, nem se mantém presença no país.O mais irônico é que o cenário à frente poderia ser promissor. Em caso de continuidade do governo de Luiz Inácio Lula da Silva, abre-se naturalmente um espaço para reorganização de forças em todos os espectros políticos ali em 2030. Um terreno fértil para novos nomes, novas lideranças, novas construções. Um convite silencioso àqueles que conseguem permanecer visíveis e sabem jogar com paciência nesse tabuleiro.Visibilidade, em política, não é um dado permanente. É um exercício contínuo. Exige presença, disputa, ocupação. Exige, sobretudo, permanência.Ao sair do jogo em 2026, abre-se mão não apenas de uma eleição. Abre-se mão de uma sequência. E, em política, sequências valem mais do que movimentos isolados. Elas constroem memória, consolidam imagem e preparam terreno.No fim, a desistência de Ratinho Júnior não será lembrada apenas como um gesto de responsabilidade administrativa. Será lida como um movimento que, ao tentar corrigir um problema imediato, pode ter criado um vazio estratégico maior.Há um ditado popular que diz que se vão os anéis e ficam os dedos. Ratinho Júnior talvez tenha pensado em abrir mão dos anéis nacionais para garantir os dedos de um possível sucessor no Paraná. Mas pode acabar sem os anéis e sem os dedos.

Quando o preconceito se disfarça de debate

Nos últimos dias não foi difícil encontrar nas redes sociais postagens que se apresentam como debate político, mas que, na prática, são apenas um amontoado de preconceitos disfarçados de argumento.E é importante começar deixando algo claro. Discordar de um político é normal. Aliás, é saudável. A democracia funciona justamente assim. As pessoas têm o direito de questionar ideias, criticar decisões, cobrar coerência e apontar contradições. Quem escolhe entrar na vida pública sabe que será observado, criticado e, muitas vezes, contestado. Até aí, nenhum problema. O problema começa quando a crítica deixa de ser sobre o que a pessoa faz e passa a ser sobre o que a pessoa é.Foi isso que apareceu em muitas publicações recentes envolvendo a deputada federal Erika Hilton. Em vez de discutir sua atuação política, suas posições ou suas decisões no Congresso, várias postagens escolheram outro caminho. Recuperaram o nome anterior da parlamentar, fizeram comentários sobre aparência, cabelo, sobrenome e identidade, e montaram listas tentando provar que a própria existência dela seria uma espécie de contradição. Perceba como a política desaparece nesse tipo de argumento.Não se fala de projeto de lei. Não se fala de voto no Congresso. Não se fala de decisões tomadas no exercício do mandato. Fala-se da pessoa.Esse tipo de estratégia não é novo. Ele aparece sempre que alguém pertencente a algum grupo minoritário conquista espaço público. Em vez de enfrentar ideias, tenta-se diminuir a pessoa. A mulher é atacada por ser mulher. O negro é reduzido à cor da pele. O gay vira motivo de piada. O indígena vira caricatura.A pessoa com deficiência passa a ser definida apenas pela limitação.Quando o alvo é uma pessoa trans, o roteiro costuma ser ainda mais previsível. O debate deixa de ser sobre política e passa a girar em torno do corpo, do nome anterior ou da identidade de gênero, como se isso fosse suficiente para invalidar tudo o que aquela pessoa faz na vida pública. Nesse momento já não estamos mais falando de política. Estamos apenas assistindo ao preconceito tentando se vestir de argumento.E é justamente aqui que mora o problema. Criticar um político é direito de qualquer cidadão. Cobrar coerência, apontar contradições e discordar de posicionamentos faz parte da vida democrática. Mas criticar exige discutir ideias. Quando alguém troca o debate de ideias por ataques à identidade da pessoa, o que aparece não é força de argumento, é falta dele. E quando o argumento desaparece, quase sempre sobra apenas o preconceito.