Contra fatos não há narrativas, nem argumentos

Semana passada esta coluna tratou das narrativas, essas criaturas políticas que caminham soltas por aí, repetidas com tanta convicção que às vezes chegam a acreditar em si próprias. Pois a semana mal tinha virado a esquina e Ponta Grossa decidiu oferecer um exemplo prático. Bastou um vídeo do secretário Sandro na RPC para entendermos que certas narrativas, além de frágeis, têm prazo de validade curto. Não por falta de entusiasmo, mas porque tropeçam na realidade antes mesmo de aprender a andar.

A prefeita Elizabeth, talvez cansada de assistir à cidade virar palco de versões improvisadas, fez o que raramente se vê na política: abriu a gaveta, empilhou os documentos e colocou tudo diante da câmera. Projeto básico, executivo, protocolos, prazos. Era papel o bastante para derrubar qualquer discurso inflamado, por mais criativo que fosse. Contra fatos não há discussões e é curioso observar como algumas falas se desfazem no ar quando confrontadas com uma simples folha assinada. Documento é um tipo de adversário ingrato: não se emociona, não muda de ideia, não depende de audiência. Apenas existe.

Enquanto isso, Sandro segue tentando vestir o figurino de quem denuncia o improviso alheio. Mas figurino sem costura não para de pé. Se há irregularidades, atrasos, falhas ou precipícios burocráticos, que faça o óbvio e mostre também os seus documentos. A cidade adoraria ver pastas, protocolos, carimbos e evidências materiais, assim como viu da prefeita. Até segunda ordem, apenas um lado apresentou papéis e o outro apresentou falas. E discurso sem papel é igual promessa sem prazo: só existe na imaginação de quem o formula.

Convém lembrar, sem ironia, que os pedidos apresentados pela prefeita não são dela. São da população. Aquela mesma população que também escolheu Sandro como deputado federal, antes de ele decidir, por conta própria, trocar Brasília por uma secretaria estadual. A cadeira mudou, mas a responsabilidade não expirou. Se ele não quer acolher as solicitações da prefeita, que ao menos acolha as da cidade que o elegeu. Obras paradas não afetam gabinetes; afetam pessoas que dependem delas. E o crescimento de Ponta Grossa não pode ficar condicionado ao humor de quem deveria zelar por ela.

No fim, a semana pode ser resumida com a simplicidade cruel dos fatos: de um lado, documentos; do outro, versões procurando se impor como realidade. E como dizem, nada envelhece mais rápido que a palavra dita sem lastro. A verdade é que nenhuma narrativa resiste quando confrontada com um calhamaço protocolado. Se ainda quiserem brincar de versões, que tragam provas à mesa. Porque contra fatos não há narrativas, nem argumentos.