Quando a matemática vence a torcida

Em toda eleição há quem descredibilize pesquisas de cunho estatístico quando os números lhe são desfavoráveis, mas as estampe em letras e percentuais garrafais quando os gráficos passam a lhe sorrir. A estatística, nesse jogo, vira menos instrumento de leitura da realidade e mais munição retórica para alimentar paixões, confirmar crenças e sustentar narrativas previamente escolhidas.

Lembro sempre de uma definição ouvida ainda nos bancos universitários, numa aula de estatística: apesar de ciência, ela muitas vezes se transforma numa espécie de tortura dos números para dizer exatamente aquilo que o interlocutor quer que o ouvinte escute. Recortes seletivos, comparações enviesadas, gráficos esteticamente honestos, mas conceitualmente maliciosos. Tudo pode ser moldado quando a intenção é convencer, não compreender.

Ainda assim, há um limite que nem a retórica mais criativa consegue ultrapassar. Quando a estatística é apresentada com método, consistência e honestidade intelectual, ela deixa de ser argumento e passa a ser fato. E contra o fato não adianta brigar, espernear, relativizar, desmaiar ou gritar. A matemática é fria, firme, subterrânea. Não se move pela torcida, não responde à militância, não negocia com o desejo. Apenas revela padrões, tendências e repetições que insistem em se impor, mesmo quando contrariam vontades.

É nesse terreno, longe do ruído das paixões políticas, que uma constatação se repete com precisão quase incômoda: desde 1994, em todas as eleições presidenciais brasileiras, sem exceção, o campo vencedor esteve do lado certo da avaliação do governo. Quando a aprovação ultrapassa 45%, a continuidade vence. Quando cai abaixo de 35%, a mudança se impõe. Entre esses dois mundos, instala-se a disputa apertada, nervosa, instável. A regra atravessou Itamar, Fernando Henrique, Lula, Dilma, Temer e Bolsonaro sem falhar por três décadas.

Na prática, os exemplos são eloquentes. Em 1994, com Itamar registrando aprovação superior a 60%, Fernando Henrique venceu no primeiro turno embalado pelo Plano Real. Em 1998, ainda sob estabilidade econômica e aprovação confortável, o próprio FHC confirmou a reeleição sem sobressaltos. Em 2006, com Lula mantendo patamar próximo de 50% de aprovação, veio a recondução ao Planalto. Em 2010, num caso quase didático de transferência de prestígio, Lula atingia níveis históricos de aprovação acima de 80% e elegeu sua sucessora. Nos momentos em que a avaliação do governo despencou abaixo dos 35%, o movimento foi inverso: em 2002, com Fernando Henrique em torno de 25%, a oposição venceu com folga; em 2018, sob a rejeição quase absoluta do governo Temer, a ruptura foi incontornável; em 2022, com Bolsonaro orbitando pouco acima de 30% de aprovação, o campo governista foi derrotado. Já quando o país permaneceu na zona intermediária, entre satisfação e frustração, a eleição assumiu contornos apertados, nervosos e instáveis, como em 2014, quando Dilma se reelegeu por margem mínima, num país já dividido e politicamente tensionado.

Isso desmonta, com delicadeza cruel, a ilusão de que eleições são decididas por retórica, carisma ou guerra cultural. O eleitor médio não vota como militante. Vota como consumidor da própria vida. Avalia se o emprego é estável, se o supermercado pesa menos no bolso, se o futuro parece previsível, se a rotina oferece algum conforto emocional. Ideologia entra depois, muitas vezes apenas para justificar aquilo que o estômago, o bolso e o humor já decidiram.

Quando se observa o atual mandato de Lula à luz dessa régua, a fotografia é desconfortável. O Datafolha mostra que o governo iniciou 2023 com algo próximo de 38% de avaliação positiva e jamais conseguiu romper a barreira simbólica dos 40%. Durante quase dois anos, flertou permanentemente com a zona cinzenta entre 35% e 38%, sem jamais consolidar entusiasmo social. Em março de 2025, veio o ponto de inflexão: a aprovação despencou para 24% e a rejeição saltou para 41%, um choque de humor coletivo que deixou marcas. Mesmo com alguma recuperação posterior, o ano terminou com apenas 32% de avaliação positiva e 37% de negativa. Estagnação, na linguagem elegante das pesquisas. Fragilidade, na linguagem da política real.

Traduzindo isso para a matemática eleitoral, o governo entra no ano eleitoral abaixo da linha de segurança. Nem mesmo no cenário estatístico mais otimista, somando a margem de erro, a aprovação ultrapassa o limiar mínimo que historicamente permite uma disputa equilibrada. A régua não aponta empate técnico. Aponta desvantagem estrutural.

Há, porém, um detalhe que a política experiente jamais ignora: não basta a matemática apontar o caminho. Eleições não são disputadas contra índices, gráficos ou planilhas. São disputadas contra candidatos reais, com densidade eleitoral, musculatura nacional, capilaridade regional, discurso minimamente coerente e capacidade de aglutinação. Um governo pode estar fraco e, ainda assim, sobreviver se a oposição se fragmentar em várias candidaturas médias, apostar em nomes sem projeção nacional ou oferecer ao eleitor um cardápio de improvisos.

Desgaste abre a porta, mas alguém precisa atravessá-la. O voto de mudança não nasce do vazio. Precisa de um porto seguro para ancorar. Quando o eleitor olha para o outro lado e não enxerga estabilidade, previsibilidade ou liderança clara, tende a recuar para o conhecido, mesmo insatisfeito. Em política, o medo de errar pesa tanto quanto o desejo de mudar.

Outro dado relevante ajuda a compreender a complexidade do momento. A aprovação pessoal do presidente permanece em torno de 49%, superior à avaliação do governo, que estaciona nos 32%. Parte do eleitorado ainda preserva algum afeto simbólico, memória histórica ou respeito pela figura de Lula, mas não transfere esse sentimento para o desempenho concreto da gestão. É o clássico divórcio entre carisma e resultado. Simpatia não paga boleto. Memória afetiva não reduz fila de hospital, nem alivia o carrinho do supermercado. O voto presidencial, no fim, não é um gesto de carinho. É um julgamento.

A história recente confirma esse roteiro. Fernando Henrique não conseguiu eleger seu sucessor em 2002 diante do desgaste econômico acumulado. Temer sequer estruturou uma sucessão viável em 2018, soterrado por rejeição social. Bolsonaro foi derrotado em 2022 após um ciclo contínuo de desgaste institucional. A política até tenta reescrever o enredo, mas o eleitor está interessado apenas no saldo.

Ainda assim, o jogo não está fechado. O governo tem de janeiro até perto do meio do ano para produzir fatos novos que sejam efetivamente sentidos pelo eleitor, não apenas anunciados. Do outro lado, a oposição dispõe do mesmo tempo para acertar seu rumo, organizar seus combinados, construir densidade nacional e, sobretudo, evitar a tentação clássica da fragmentação. Eleição não se ganha apenas com governo fraco. Ganha-se com alternativa forte.

No fundo, eleições funcionam como um grande plebiscito emocional. O eleitor não pergunta quem promete mais. Pergunta quem entregou melhor. Não avalia o amanhã abstrato. Julga o ontem concreto. A urna não premia intenções. Recompensa percepções.

Talvez por isso a matemática eleitoral seja tão implacável. Ela não erra porque não se ilude. Enquanto parte da política insiste em brigar com os números, os números seguem contando a mesma história, eleição após eleição: governos bem avaliados vencem. Governos mal avaliados pagam a conta. O resto é torcida.