FAÇA O QUE DIGO, MAS NÃO FAÇA O QUE EU FAÇO

Florianópolis decidiu montar uma barreira invisível.Chamam de triagem, mas o nome é o de sempre: filtro. O prefeito Topázio Neto, num surto de zelo administrativo, criou um posto na rodoviária para identificar quem chega à cidade sem emprego ou moradia e, se for o caso, “dar passagem de volta”. É a política do “você não é bem-vindo disfarçada de assistência social”.

Pouco tempo depois, o governador Jorginho Mello resolveu carimbar a metáfora com humor duvidoso. Publicou nas redes um “visto de SC”, como se o estado fosse uma ilha soberana que concede ou nega permissão de entrada. O gesto serviu para reforçar a retórica da exclusão, um tipo de provincianismo travestido de ordem.

Mas eis que o discurso se enrola nas próprias fronteiras.Enquanto migrantes pobres são “devolvidos” e voluntários precisam de alvará para entregar marmitas, o clã Bolsonaro resolve que Santa Catarina é um bom porto para ancorar seu projeto de poder. Carlos Bolsonaro, vereador do Rio de Janeiro, já anunciou a intenção de disputar o Senado catarinense em 2026. De repente, o mesmo estado que se fechava para quem chega sem vínculo abre os braços para um candidato importado. A régua da seletividade muda de mãos.

“Faça o que digo, mas não faça o que eu faço.” O bordão moralista encaixa-se como luva. Quando o visitante é um migrante vulnerável, sem emprego nem casa, é “problema social”. Quando o forasteiro é um político influente, sem domicílio eleitoral ainda regularizado, é “renovação”.

É curioso como o discurso sobre “preservar a cultura local” desaparece quando o que vem de fora tem sobrenome forte. A xenofobia social vira hospitalidade política.
Santa Catarina, nesse enredo, parece uma cidade medieval: fecha as muralhas para o povo, mas abre o portão principal quando chega o mensageiro do rei.

Há um simbolismo perigoso nessa contradição. O mesmo poder público que se sente autorizado a devolver pobres às suas cidades de origem e restringir a distribuição de comida em praça pública não hesita em importar um candidato de outro estado.
A mobilidade humana vira problema quando é social; vira estratégia quando é eleitoral.

O “visto de SC” virou, afinal, passaporte seletivo. Não serve para quem foge da fome, mas vale ouro para quem foge da rejeição nas urnas cariocas. E no meio de tudo isso, sobra o povo catarinense, aquele que paga impostos, enfrenta o custo de vida e agora precisa decidir se o estado é uma fortaleza ou um palanque.

Florianópolis, capital das contradições, parece ter esquecido que a história da ilha começou justamente com gente que veio de fora. Portugueses, açorianos, gaúchos, paranaenses, nordestinos: todos migraram para tentar uma vida melhor. Mas no Brasil de hoje, a mobilidade só é livre quando convém. Para os pobres, triagem.
Para os poderosos, tapete vermelho.