Narrativas vs. Realidade

Há quem diga que o Brasil é uma terra movida por fé, futebol, feijoada e carnaval. Discordo. O Brasil é movido por narrativas, por histórias tão bem contadas, ou não, que de tanto se propagarem acabam virando verdades absolutas, ou não. Há séculos sobrevivemos de versões criativas dos fatos, enfeitadas com tanta convicção que, quando a realidade tenta participar, pedem a ela que aguarde um instante, porque a história ainda não terminou.

Nos últimos anos, então, as narrativas deixaram de ser coadjuvantes e pediram protagonismo. Tomaram a palavra, a praça e os trending topics. Viramos experts em defender o indefensável com uma naturalidade que faria inveja aos roteiristas do finado Zorra Total.

Nada, porém, supera o enredo recente envolvendo o ex-presidente Jair Bolsonaro e sua agora célebre tornozeleira eletrônica. O país assistiu, perplexo, ao desfile de justificativas que dariam um excelente episódio de O Fantástico Mundo de Jair ou um capítulos inteiros dos humorísticos de Chico Anysio ou Jô Soares, caso ele resolvesse escrever, de onde estão, sobre o atual surrealismo político tropical.

Primeiro, disse Jair que ouviu vozes. Não especificou se eram das Forças Armadas, de Carluxo narrando em off seu próximo plano mirabolante ou se de sua consciência pedindo parase reinventar, já que quase nada tem dado certo ultimamente.

Depois, alegou que mexeu na tornozeleira por curiosidade. Como quem abre a geladeira às três da manhã só para conferir se a luz ainda funciona, ele resolveu verificar se o objeto que fiscaliza sua liberdade tinha, por acaso, um manual secreto.

E, num momento de rara sinceridade, confessou ter usado uma máquina de solda. O Brasil é tão criativo que até suas tentativas de fuga eletrônica são artesanais. Se tivesse dado certo, provavelmente diriam que não foi ele: foi “um conhecido seu”, aquele mesmo, mais secreto que as Emendas PIX.

A narrativa, nesse caso, tentou superar a física, o direito e a lógica. Perdeu feio. A tornozeleira dura, objetiva, factual venceu por W.O. a fraca cognição. 

Mas, como bons brasileiros, preferimos sempre acreditar na melhor versão. Ou na pior, desde que seja divertida.

E já que estamos falando de narrativas, impossível não comentar a mais tropical delas: a do futebol. O brasileiro consegue reescrever qualquer partida com a precisão de um roteirista. E, claro, chegamos à final da Libertadores entre Flamengo e Palmeiras.

A narrativa palmeirense, muito bem lapidada, gira em torno da possível expulsão de Erick Pulgar. Confesso: mesmo sendo flamenguista, acho que deveria ter sido expulso. O VAR ali perdeu a chance de aparecer mais que o Galvão Bueno agarrado no pescoço do Pelé.

Curioso como a história contada nunca passa pelo óbvio: o Palmeiras só esboçou algum ataque depois de tomar o gol. Antes, parecia que estava esperando autorização por escrito para cruzar o meio-campo.

O torcedor alviverde, porém, prefere acreditar na tese da “partida injusta”, do “detalhe que mudou tudo”, do “se o juiz tivesse…”. E o rubro-negro, claro, acredita na tese da justiça divina, que sempre coincide com o placar favorável.

No final é isso: narrativas. Cada um escolhe a sua, adefende como verdade absoluta e dorme tranquilo, embalado não pelos fatos, mas pelo conforto da própria versão daquilo que lhe é mais conveniente.

Talvez o Brasil só precise aprender uma coisa: a realidade não tem obrigação de concordar conosco.Mas que bom seria se tivesse, né?