Quando o preconceito se disfarça de debate

Nos últimos dias não foi difícil encontrar nas redes sociais postagens que se apresentam como debate político, mas que, na prática, são apenas um amontoado de preconceitos disfarçados de argumento.
E é importante começar deixando algo claro. Discordar de um político é normal. Aliás, é saudável. A democracia funciona justamente assim. As pessoas têm o direito de questionar ideias, criticar decisões, cobrar coerência e apontar contradições. Quem escolhe entrar na vida pública sabe que será observado, criticado e, muitas vezes, contestado. Até aí, nenhum problema. O problema começa quando a crítica deixa de ser sobre o que a pessoa faz e passa a ser sobre o que a pessoa é.
Foi isso que apareceu em muitas publicações recentes envolvendo a deputada federal Erika Hilton. Em vez de discutir sua atuação política, suas posições ou suas decisões no Congresso, várias postagens escolheram outro caminho. Recuperaram o nome anterior da parlamentar, fizeram comentários sobre aparência, cabelo, sobrenome e identidade, e montaram listas tentando provar que a própria existência dela seria uma espécie de contradição. Perceba como a política desaparece nesse tipo de argumento.
Não se fala de projeto de lei. Não se fala de voto no Congresso. Não se fala de decisões tomadas no exercício do mandato. Fala-se da pessoa.
Esse tipo de estratégia não é novo. Ele aparece sempre que alguém pertencente a algum grupo minoritário conquista espaço público. Em vez de enfrentar ideias, tenta-se diminuir a pessoa. A mulher é atacada por ser mulher. O negro é reduzido à cor da pele. O gay vira motivo de piada. O indígena vira caricatura.
A pessoa com deficiência passa a ser definida apenas pela limitação.
Quando o alvo é uma pessoa trans, o roteiro costuma ser ainda mais previsível. O debate deixa de ser sobre política e passa a girar em torno do corpo, do nome anterior ou da identidade de gênero, como se isso fosse suficiente para invalidar tudo o que aquela pessoa faz na vida pública. Nesse momento já não estamos mais falando de política. Estamos apenas assistindo ao preconceito tentando se vestir de argumento.
E é justamente aqui que mora o problema. Criticar um político é direito de qualquer cidadão. Cobrar coerência, apontar contradições e discordar de posicionamentos faz parte da vida democrática. Mas criticar exige discutir ideias. Quando alguém troca o debate de ideias por ataques à identidade da pessoa, o que aparece não é força de argumento, é falta dele. E quando o argumento desaparece, quase sempre sobra apenas o preconceito.