Bancos argentinos reduzem crédito e voltam a priorizar títulos do governo

Ganhos com títulos públicos responderam por 56% da receita operacional em julho, enquanto crédito ao setor privado fica estagnado

Bancos argentinos reduzem crédito e voltam a priorizar títulos do governo
Banco argentino durante discussão sobre política de crédito. Foto: Bloomberg

Instituições financeiras argentinas voltam a depender de títulos públicos como principal fonte de lucro, interrompendo expansão de crédito ao setor privado

As instituições financeiras da Argentina reduziram a expansão de crédito e voltaram a priorizar títulos do governo como principal fonte de lucro, revertendo ganhos obtidos nos primeiros meses da gestão Javier Milei.

Os ganhos com títulos públicos responderam por cerca de 56% da receita operacional dos bancos comerciais em julho, segundo dados mais recentes do sistema financeiro divulgados pelo Banco Central da Argentina. O percentual é mais de três vezes superior aos 17% gerados pela receita líquida de juros do crédito ao setor privado, que corresponde à diferença entre os juros recebidos nos empréstimos e os juros pagos aos depositantes, descontadas as provisões para perdas com inadimplência.

A desaceleração econômica e o aumento da inadimplência prejudicam o negócio tradicional de concessão de crédito. Juan José Vázquez, chefe de pesquisa da corretora argentina Cohen, explicou a estratégia dos bancos: “Os bancos ainda estão priorizando liquidez. Em um ambiente incerto, manter instrumentos financeiros líquidos permite reagir muito mais rapidamente do que uma carteira de empréstimos.”

A tendência preocupante ocorre a um ano da próxima eleição presidencial argentina. O crescimento econômico desigual e o elevado desemprego têm pressionado a popularidade de Milei, apesar do sucesso no combate à inflação de três dígitos. A política monetária rígida e os juros elevados, utilizados para conter a inflação e estabilizar a moeda, estão empurrando os bancos de volta para os títulos públicos em um momento de desaceleração da economia agravada pela falta de crédito.

A tendência promissora observada no sistema bancário durante os primeiros meses do governo Milei perdeu força ao longo do último ano. O crédito ao setor privado cresceu de forma acelerada após a chegada do presidente libertário ao poder, mas os bancos continuam obtendo uma parcela muito maior de seus lucros com títulos públicos do que com a atividade tradicional de intermediação financeira.

No fim de 2023, o negócio bancário tradicional praticamente não existia. A receita líquida de juros era negativa, enquanto os ganhos com títulos públicos frequentemente superavam toda a receita operacional das instituições. A recuperação iniciada em 2024 foi expressiva, com o crédito bancário ao setor privado mais que dobrando como proporção da economia, passando de cerca de 5,3% do PIB no fim de 2023.