
Há algo que precisa ser dito antes de qualquer análise, o servidor público merece respeito. É ele quem sustenta o funcionamento diário da cidade, quem está na escola, na unidade de saúde, no atendimento direto à população. É legítimo que se organize, que proteste, que vá às ruas. Reivindicar direitos não é exagero, é parte do jogo democrático. Quando uma categoria se mobiliza, há ali um sinal claro de que algo precisa ser ouvido.
Também é preciso reconhecer que a busca por valorização é justa. Nenhuma categoria quer ver seu salário perder poder de compra ao longo do tempo, nenhuma categoria trabalha esperando ficar para trás. Pedir melhores condições, discutir remuneração, pressionar por avanços, tudo isso faz parte de uma sociedade que se movimenta. O protesto, portanto, não é o problema, muitas vezes é o início da solução.
Mas é exatamente aqui que a conversa precisa ganhar profundidade. Porque o que está sobre a mesa não é um pedido qualquer, o que se pede é 15% sobre as tabelas salariais e 50% no vale-refeição. E esses números não podem ser analisados apenas pelo sentimento, eles precisam ser confrontados com a realidade.
A inflação oficial fechou 2025 em 4,26%. Nos últimos 12 meses até fevereiro de 2026, gira em torno de 3,81%. Quando se fala em 15% sobre as tabelas salariais e 50% no vale-refeição, não se está falando de reposição inflacionária, se está falando de algo muito acima disso. Se está falando de um salto, não de uma correção.
E salto, na vida real, precisa de sustentação. Porque reajustes não nascem do desejo, nascem da capacidade. No setor privado, as negociações recentes giram na casa de 4% a 6%, com algum ganho real tímido. Não há, no mercado, uma onda de 15% sobre as tabelas salariais, muito menos de 50% no vale-refeição. Não porque o trabalhador não mereça, mas porque a conta simplesmente não fecha nesses termos.
É por isso que insistir nos números é importante. 15% sobre as tabelas salariais e 50% no vale-refeição não cabem na mesma lógica de uma inflação que mal chega a 4%. São grandezas diferentes, são realidades distintas. Tratar uma como se fosse a outra é simplificar um problema que é, por natureza, complexo.
E é nesse ponto que a discussão deixa de ser apenas sobre servidores e passa a ser sobre cidade. Porque, enquanto se discute 15% sobre as tabelas salariais e 50% no vale-refeição, a diarista segue negociando a passagem de ônibus com a patroa, o lixeiro cumpre sua rota sem reajuste de dois dígitos, o varredor de rua trabalha sob sol e chuva, e a caixa de supermercado, na escala 6×1, trabalha domingos e feriados por aumentos que mal acompanham a inflação. Nenhum deles reivindica 15% sobre as tabelas salariais, nenhum deles trabalha com a expectativa de 50% no vale-refeição. Mas são exatamente eles que, no fim, pagarão essa conta.
Porque a conta pública não nasce do nada, ela sai do imposto, do consumo, da cidade real. E, diferente do discurso, ela sempre fecha, só nunca fecha para quem menos pode. E talvez o problema não seja pedir demais, seja esquecer quem paga.






