Fed ajusta foco para riscos de inflação diante do choque energético global

Pesquisa do Federal Reserve de Boston aponta mudança estrutural no impacto do preço do petróleo sobre a inflação e emprego nos EUA

Fed ajusta foco para riscos de inflação diante do choque energético global
Economistas do Federal Reserve avaliam o impacto dos choques de energia na economia dos EUA Foto: REUTERS/Joshua Roberts

Estudo do Fed de Boston revela que mudanças no uso de energia nos EUA alteram os riscos de inflação frente ao choque dos preços do petróleo.

Impacto dos choques do petróleo e a mudança na política do Fed

O relatório divulgado em 4 de junho pelo Federal Reserve de Boston destaca que os riscos de inflação decorrentes do choque do preço do petróleo estão passando por uma transformação estrutural na economia dos EUA. Em meio ao conflito no Oriente Médio que impulsiona os preços da energia, a pesquisa mostra que o Federal Reserve deve concentrar suas decisões de política monetária principalmente no efeito inflacionário desses choques, ao invés de se preocupar tanto com o impacto no emprego, como ocorria no passado. Os economistas do Fed apontam uma mudança fundamental causada por maior eficiência energética e a produção de energia dentro do país.

Eficiência energética e produção doméstica moldam nova dinâmica econômica

Desde a década de 1970, os EUA viram uma reconfiguração significativa na forma como a economia responde às variações no preço do petróleo. A maior eficiência no uso da energia e o aumento da extração doméstica reduziram a sensibilidade da inflação a esses choques e modificaram o comportamento do mercado de trabalho. Com a produção interna estimulada por preços mais altos, o setor energético cria empregos, compensando as perdas que antes seriam generalizadas. Isso reduz o impacto desinflacionário típico associado à perda de empregos em larga escala, resultando em pressões inflacionárias maiores do que se esperaria em choques anteriores.

Comparação histórica e a redução da estagflação

A pesquisa do Fed de Boston enfatiza que o choque atual de energia, embora significativo, é menos severo em seus efeitos econômicos do que eventos anteriores como o embargo da Opep em 1973-1974 e a Revolução Iraniana de 1978-1980. Além disso, a menor influência desses choques sobre o emprego diminui a probabilidade de ocorrer a típica estagflação — a combinação de inflação alta e desemprego elevado — que marcou a economia norte-americana na década de 1970. Essa mudança estrutural reorienta o foco do Fed para as pressões inflacionárias mais diretas, mesmo que o mercado de trabalho permaneça relativamente estável.

Desafios atuais para a política monetária do Federal Reserve

No contexto da guerra entre EUA, Israel e Irã, a política monetária enfrenta o desafio de lidar com a elevação das pressões inflacionárias provocadas pelos choques energéticos. A reunião do Fed agendada para 16 e 17 de junho está cercada de expectativas pela possibilidade de manutenção das taxas de juros nos níveis atuais, entre 3,50% e 3,75%. As autoridades monitoram atentamente se será necessário endurecer a política para conter a inflação persistente, que permanece acima da meta de 2% há vários anos. A pesquisa sugere que possíveis aumentos adicionais nos juros podem ser necessários para evitar que as pressões de preço se enraízem, mesmo que isso não gere um impacto severo no emprego.

Perspectivas para o mercado de trabalho e a inflação persistente

Além dos efeitos diretos dos choques do petróleo, o estudo destaca que a atenuação do impacto no emprego faz com que a inflação possa se manter elevada por mais tempo, caso os choques energéticos persistam. Essa nova configuração implica que o Federal Reserve deve ajustar sua estratégia de política monetária para focar principalmente na contenção da inflação, considerando que o tradicional trade-off entre inflação e desemprego está menos presente. A evolução do conflito no Oriente Médio e o comportamento dos preços internacionais de energia serão determinantes para os rumos da economia e para as decisões futuras do banco central americano.