O som da irrelevância

Tem coisas que a gente escuta e, na hora, já entende que não eram para ter saído dali. Não porque sejam inéditas. Não são. A política está cheia de bastidores mal resolvidos, de vaidades infladas e de gente que confunde função pública com extensão do próprio ego. Mas existe uma regra silenciosa que sustenta esse teatro todo: certas coisas só funcionam enquanto permanecem em voz baixa. Em Ponta Grossa, alguém esqueceu disso.

O áudio vazou. E, com ele, não vazaram apenas palavras. Vazou uma mentalidade. Vazou uma compreensão quase caricata do que é exercer poder.Ali, no ambiente que deveria ser de responsabilidade, viu-se algo mais próximo de uma reunião de Grêmio Estudantil de escola primária. Uma espécie de conselho de turma onde se distribuem tarefas, se combinam estratégias e se acredita, com uma segurança quase ingênua, que o mundo lá fora não está olhando. Foi constrangedor.

Não pela ilegalidade em si, que cabe aos órgãos competentes avaliar. Mas pelo amadorismo. Pela sensação de que, enquanto se falava, ninguém ali tinha plena consciência do peso do que estava dizendo. Era política de faz de conta.Uma encenação em que o cargo vira fantasia, a equipe vira elenco e a gestão vira cenário. Um quarto de brinquedos bem montado, com cargos, funções e planos, onde se acredita que mandar é apenas uma questão de vontade.

Só que não é. E o mais cruel da política não é quando alguém erra. É quando alguém erra achando que está arrasando. Veio então o choque com a realidade. Notas oficiais, exonerações, indignação pública. O tipo de reação que não corrige o erro, mas tenta, ao menos, limitar o dano. Tudo muito rápido. Tudo muito sério. Tudo muito adulto, de repente.

Mas deixa eu te contar uma coisa. Como essa coluna é semanal, inocentemente acreditei que esse seria o tema local da semana. Ledo engano quando se acompanha política em ano eleitoral. Porque, enquanto em Ponta Grossa ainda se tentava entender como recolher os cacos de um áudio constrangedor, o Paraná já estava em outro nível de conversa.

Sem microfone aberto. Sem improviso. Sem ingenuidade. Quase ao mesmo tempo em que o episódio ganhava repercussão, o governador Ratinho Junior fazia um movimento que não depende de justificativa pública imediata. Escolhia o nome que pretende ver sentado no Palácio Iguaçu. E o escolhido foi Sandro Alex.

Sim, o mesmo nome citado no áudio. O mesmo nome que, em um ambiente, parecia alvo de um plano meio improvisado. E que, em outro, era tratado como peça central de um projeto de poder. É aqui que a diferença deixa de ser sutil.De um lado, alguém organizando uma campanha como quem monta um grupo de trabalho de última hora, acreditando que liderança se impõe pelo tom de voz. Do outro, um sistema político inteiro operando com critérios que não cabem em áudio vazado.

Enquanto um lado brincava de comando, o outro exercia comando de verdade.Enquanto uns ainda tentavam entender como manter influência mesmo fora da cadeira, outros já decidiam quem vai ocupar a próxima. E talvez essa seja a parte mais incômoda de tudo. O áudio não expôs apenas um erro. Expôs irrelevância.

Porque, no exato momento em que alguém acreditava estar desenhando o jogo, o jogo já estava sendo decidido em outro lugar, por outras pessoas, em outra lógica. Sem consulta. Sem aviso. Sem necessidade de incluir quem estava, naquele instante, falando demais e entendendo de menos. No fim, a política tem um jeito muito próprio de colocar cada um no seu lugar. Alguns falam. Outros decidem. E existe uma distância enorme entre essas duas coisas.