O eleitor do Paraná vai às urnas em 2026 com uma certeza na cabeça: vai escolher dois senadores. É o que diz a campanha, é o que aparece na urna, é o que todo mundo repete. Mas a política brasileira, essa senhora que adora as letras miúdas, preparou um daqueles anúncios de fim de feira, quando o estoque está vencendo e o berrante do “pague dois, leve três” serve para esconder a fruta machucada no fundo do cesto. Você vota em dois, mas o sistema te empurra três. E o terceiro, veja que ironia, entra pela porta da cozinha sem ter gasto um centavo de sola de sapato ou uma gota de suor no calçadão.
O jogo está na cara e só não vê quem está distraído com videozinhos lacradores em redes sociais. Duas vagas estão no balcão porque Flávio Arns e Oriovisto Guimarães vão pendurar as chuteiras. Até aí, nada de novo sob o sol. O veneno, a verdadeira casca de banana que jogaram no meio da calçada, está na terceira cadeira: a de Sergio Moro. O ex-juiz foi eleito em 2022 com contrato assinado até 2030, mas já olha para o Palácio Iguaçu com a fome de quem acha o Senado apertado demais para o tamanho de seu ego. Se ele levar o governo, o seu voto de senador vira papel de embrulhar peixe.
Não dá para dizer que é surpresa. O roteiro é velho e o personagem não aguenta o final do filme. Abandonou a toga pelo palanque, largou o ministério antes de o café esfriar e agora ensaia o abandono do Senado antes mesmo da metade do caminho. Não é imprevisto, é método. É o vício de quem usa o cargo público como degrau de escada, sempre visando o degrau mais alto, ou o que impulsione para algo maior. Pisa, sobe e pula para o próximo, sem olhar para o degrau que ficou para trás.
E quem fica com o resto da xepa? O suplente. Essa figura fantasmagórica que ganha um império de verbas, assessores e poder político sem nunca ter encarado o moedor de gente que é uma campanha de verdade. É o senador brinde, o bônus indesejado que vem escondido no pacote. O eleitor vota no rosto famoso da TV, mas leva para casa o sujeito que vai mandar na sua vida por quatro anos sem ter pedido licença a ninguém.
Na real, estamos entregando uma chave de ouro para quem nem sequer foi testado. Está na lei? Está. Mas faz sentido tratar o Senado como trampolim? Faz sentido aceitar que o mandato seja só um quebra-galho para projetos pessoais? Uma coisa é mudar de rumo porque a estrada acabou. Outra é pular do carro em movimento só porque viu uma Ferrari passando ao lado.
Quando o abandono vira hábito, o erro deixa de ser do político e passa a ser nosso, que votamos como se o suplente fosse um detalhe irrelevante no rodapé da página. Em 2026, o Paraná pode eleger dois senadores e levar três: dois pelo voto e um pela conveniência de quem decidiu que o compromisso com o povo tem data de validade.
Fiz questão de não citar os nomes dos suplentes de Moro aqui. De propósito. Quero que você faça o teste agora. Sem consultar o oráculo do celular, você sabe quem são eles? Se a memória falhou, não se culpe. O sistema é desenhado exatamente para você não lembrar. Enquanto você olha para o brilho da estrela principal, o figurante se prepara para virar dono da cena. No teatro da política, o ingresso é caro e, no final, quem paga a conta da peça somos todos nós..





