Quando o Lago Transborda Vulnerabilidade

O Lago de Olarias é bonito demais para carregar tanto desconforto. A água, que reflete o céu e as luzes da cidade, também espelha o comportamento de quem o cerca. E o reflexo, ultimamente, anda turvo. Entre risos que se transformam em gritos e um animal que perdeu a vida onde deveria encontrar abrigo, o lago parece gritar em silêncio: há algo errado com a nossa forma de conviver.

Dois acontecimentos diferentes se cruzam no mesmo cenário e apontam a mesma ferida. De um lado, uma confusão que começou banal e terminou em tumulto. De outro, a morte de uma capivara que vivia livre às margens, símbolo manso de um espaço que deveria unir gente e natureza. Em ambos os casos, o denominador comum não é apenas a violência, mas a sensação de vulnerabilidade que se instala quando o espaço público deixa de ser encontro e passa a ser incerteza.

Essa vulnerabilidade se tornou um estado. O lago, que nasceu como refúgio, hoje transborda vulnerabilidade. Ela se infiltra nos gestos, nas conversas, na cautela de quem passeia e já não sabe se está em um parque ou em um risco. E o mais curioso é que, ali mesmo, existe um posto fixo da Guarda Municipal, presença que deveria bastar para garantir tranquilidade. Ainda assim, a confusão aconteceu. Ainda assim, o animal morreu. Isso evidencia a diferença entre vigiar e proteger e revela que confiança comunitária não se impõe, se cultiva.

Esse cultivo passa por hábitos que parecem pequenos, mas constroem ambientes inteiros. O Lago de Olarias nasceu como promessa de convivência, porém o que se vê com frequência é o oposto: lixo que fica pelo caminho, atitudes que desconsideram o outro, uma ocupação que trata o bem comum como cenário descartável. O problema não está nas margens nem na água. Está na ideia, cada vez mais presente, de que tudo pode acontecer e ninguém realmente responde por nada.

A isso se soma a cultura do excesso de volume. Música alta em diversos bares e até eventos com queima de fogos espalham um ruído que não é apenas incômodo, é agressivo. Afeta quem quer conversar, descansar ou simplesmente contemplar a paisagem. E fere também os animais: cães com tutores ou não, aves que fazem seus ninhos, a fauna de modo geral que se acostumou a dividir o espaço com a gente. O som contínuo e as explosões dos fogos podem provocar estresse, fuga e desorientação. Vale a pergunta que a cidade precisa se fazer sem medo de parecer óbvia: um parque como o Lago de Olarias é ambiente para música alta? Talvez caibam limites de horário e de decibéis, zonas de silêncio e alternativas mais civilizadas de celebração, como fogos sem estampido. O lazer agradece, a saúde agradece, a natureza agradece.

Nesse contexto, a morte da capivara não é apenas um acontecimento triste. Ela se torna símbolo. Quando colocada ao lado da confusão humana, revela que a mesma vulnerabilidade atravessa a natureza e o convívio social. São episódios distintos que dizem a mesma coisa: desaprendemos a nos sentir seguros uns com os outros e com o que nos cerca.

Não é falta de estrutura. É falta de vínculo. O lago tem tudo o que uma cidade precisa para se orgulhar de si mesma: beleza, acesso, presença constante de vigilância. O que lhe falta é confiança. A confiança de quem frequenta, de quem observa, de quem zela. A confiança que nasce quando o espaço público deixa de ser apenas cenário e volta a ser comunidade.

O lago não fala, mas responde. Mostra o quanto a insegurança se infiltra até nos lugares feitos para descansar a alma. Quando o lago transborda vulnerabilidade, não é a água que sai do leito. É o sentimento de pertencimento que se perde pelas bordas.

Ponta Grossa tem, no Lago de Olarias, um de seus retratos mais bonitos. E também um dos mais sinceros. Ele nos lembra, com sua serenidade ferida, que segurança não é patrulha, é respeito. Que o cuidado não se mede por câmeras, mas por presença. E que a beleza de um espaço não depende da paisagem, mas da conduta de quem o habita. Enquanto houver silêncio, ele continuará refletindo. E talvez um dia, quando o olhar coletivo voltar a confiar, o lago volte a espelhar aquilo que um dia sonhou ser: um lugar de encontro, e não de alerta.