Quando a matemática vence a torcida

Em toda eleição há quem descredibilize pesquisas de cunho estatístico quando os números lhe são desfavoráveis, mas as estampe em letras e percentuais garrafais quando os gráficos passam a lhe sorrir. A estatística, nesse jogo, vira menos instrumento de leitura da realidade e mais munição retórica para alimentar paixões, confirmar crenças e sustentar narrativas previamente escolhidas. Lembro sempre de uma definição ouvida ainda nos bancos universitários, numa aula de estatística: apesar de ciência, ela muitas vezes se transforma numa espécie de tortura dos números para dizer exatamente aquilo que o interlocutor quer que o ouvinte escute. Recortes seletivos, comparações enviesadas, gráficos esteticamente honestos, mas conceitualmente maliciosos. Tudo pode ser moldado quando a intenção é convencer, não compreender. Ainda assim, há um limite que nem a retórica mais criativa consegue ultrapassar. Quando a estatística é apresentada com método, consistência e honestidade intelectual, ela deixa de ser argumento e passa a ser fato. E contra o fato não adianta brigar, espernear, relativizar, desmaiar ou gritar. A matemática é fria, firme, subterrânea. Não se move pela torcida, não responde à militância, não negocia com o desejo. Apenas revela padrões, tendências e repetições que insistem em se impor, mesmo quando contrariam vontades. É nesse terreno, longe do ruído das paixões políticas, que uma constatação se repete com precisão quase incômoda: desde 1994, em todas as eleições presidenciais brasileiras, sem exceção, o campo vencedor esteve do lado certo da avaliação do governo. Quando a aprovação ultrapassa 45%, a continuidade vence. Quando cai abaixo de 35%, a mudança se impõe. Entre esses dois mundos, instala-se a disputa apertada, nervosa, instável. A regra atravessou Itamar, Fernando Henrique, Lula, Dilma, Temer e Bolsonaro sem falhar por três décadas. Na prática, os exemplos são eloquentes. Em 1994, com Itamar registrando aprovação superior a 60%, Fernando Henrique venceu no primeiro turno embalado pelo Plano Real. Em 1998, ainda sob estabilidade econômica e aprovação confortável, o próprio FHC confirmou a reeleição sem sobressaltos. Em 2006, com Lula mantendo patamar próximo de 50% de aprovação, veio a recondução ao Planalto. Em 2010, num caso quase didático de transferência de prestígio, Lula atingia níveis históricos de aprovação acima de 80% e elegeu sua sucessora. Nos momentos em que a avaliação do governo despencou abaixo dos 35%, o movimento foi inverso: em 2002, com Fernando Henrique em torno de 25%, a oposição venceu com folga; em 2018, sob a rejeição quase absoluta do governo Temer, a ruptura foi incontornável; em 2022, com Bolsonaro orbitando pouco acima de 30% de aprovação, o campo governista foi derrotado. Já quando o país permaneceu na zona intermediária, entre satisfação e frustração, a eleição assumiu contornos apertados, nervosos e instáveis, como em 2014, quando Dilma se reelegeu por margem mínima, num país já dividido e politicamente tensionado. Isso desmonta, com delicadeza cruel, a ilusão de que eleições são decididas por retórica, carisma ou guerra cultural. O eleitor médio não vota como militante. Vota como consumidor da própria vida. Avalia se o emprego é estável, se o supermercado pesa menos no bolso, se o futuro parece previsível, se a rotina oferece algum conforto emocional. Ideologia entra depois, muitas vezes apenas para justificar aquilo que o estômago, o bolso e o humor já decidiram. Quando se observa o atual mandato de Lula à luz dessa régua, a fotografia é desconfortável. O Datafolha mostra que o governo iniciou 2023 com algo próximo de 38% de avaliação positiva e jamais conseguiu romper a barreira simbólica dos 40%. Durante quase dois anos, flertou permanentemente com a zona cinzenta entre 35% e 38%, sem jamais consolidar entusiasmo social. Em março de 2025, veio o ponto de inflexão: a aprovação despencou para 24% e a rejeição saltou para 41%, um choque de humor coletivo que deixou marcas. Mesmo com alguma recuperação posterior, o ano terminou com apenas 32% de avaliação positiva e 37% de negativa. Estagnação, na linguagem elegante das pesquisas. Fragilidade, na linguagem da política real. Traduzindo isso para a matemática eleitoral, o governo entra no ano eleitoral abaixo da linha de segurança. Nem mesmo no cenário estatístico mais otimista, somando a margem de erro, a aprovação ultrapassa o limiar mínimo que historicamente permite uma disputa equilibrada. A régua não aponta empate técnico. Aponta desvantagem estrutural. Há, porém, um detalhe que a política experiente jamais ignora: não basta a matemática apontar o caminho. Eleições não são disputadas contra índices, gráficos ou planilhas. São disputadas contra candidatos reais, com densidade eleitoral, musculatura nacional, capilaridade regional, discurso minimamente coerente e capacidade de aglutinação. Um governo pode estar fraco e, ainda assim, sobreviver se a oposição se fragmentar em várias candidaturas médias, apostar em nomes sem projeção nacional ou oferecer ao eleitor um cardápio de improvisos. Desgaste abre a porta, mas alguém precisa atravessá-la. O voto de mudança não nasce do vazio. Precisa de um porto seguro para ancorar. Quando o eleitor olha para o outro lado e não enxerga estabilidade, previsibilidade ou liderança clara, tende a recuar para o conhecido, mesmo insatisfeito. Em política, o medo de errar pesa tanto quanto o desejo de mudar. Outro dado relevante ajuda a compreender a complexidade do momento. A aprovação pessoal do presidente permanece em torno de 49%, superior à avaliação do governo, que estaciona nos 32%. Parte do eleitorado ainda preserva algum afeto simbólico, memória histórica ou respeito pela figura de Lula, mas não transfere esse sentimento para o desempenho concreto da gestão. É o clássico divórcio entre carisma e resultado. Simpatia não paga boleto. Memória afetiva não reduz fila de hospital, nem alivia o carrinho do supermercado. O voto presidencial, no fim, não é um gesto de carinho. É um julgamento. A história recente confirma esse roteiro. Fernando Henrique não conseguiu eleger seu sucessor em 2002 diante do desgaste econômico acumulado. Temer sequer estruturou uma sucessão viável em 2018, soterrado por rejeição social. Bolsonaro foi derrotado em 2022 após um ciclo contínuo de desgaste institucional. A política até tenta reescrever o enredo, mas o eleitor está interessado apenas no saldo. Ainda assim, o jogo não está fechado. O governo tem de

O déjà-vu que não aprendeu a lição

Há um curioso e incômodo sentimento de déjà-vu rondando a política local. Como se o calendário tivesse avançado, mas o método tivesse ficado parado no tempo. Muda o ano, muda o alvo, mas a insistência é a mesma: utilizar uma concessão pública de rádio como instrumento de ataque político direto, não para informar, mas para desgastar adversários. Ontem era a prefeita. Hoje é Aliel. Amanhã, qualquer um que ameace o projeto de poder da vez, que hoje, diga-se de passagem, está mais para um tumulo caiado. O problema é que a estratégia envelheceu mal. A rádio já não reina sozinha. O microfone perdeu o monopólio da narrativa e passou a ser apenas o ponto de partida. Na era das redes sociais, tudo o que é dito ali ganha nova vida fora dali, recortado, arquivado e devolvido ao público com resposta imediata. Quando bem usadas, as redes sociais não são apenas defesa. São bala de canhão. E costumam atravessar com facilidade discursos que se sustentam mais no volume do que nos fatos. Em 2024, essa fórmula já produziu um resultado claro. O ataque reiterado, o tom acusatório e a tentativa de colar rótulos acabaram fortalecendo quem se pretendia enfraquecer. A então candidata Elizabeth Schmidt soube transformar o conteúdo que saía da rádio em material de confronto direto, com documentos, vídeos e respostas públicas. O efeito foi devastador para quem apostava na velha lógica do “fale que cola”. Não colou. E, ainda assim, o erro reaparece, agora direcionado ao deputado Aliel Machado, como se o eleitor tivesse memória curta ou como se o ambiente digital tivesse desaparecido de repente. Esse pano de fundo ajuda a entender o desconforto atual. Enquanto o discurso tenta ocupar o espaço da moralidade, os fatos insistem em aparecer. Recentemente, Marcelo Rangel assinou um Acordo de Não Persecução Civil com o Ministério Público, encerrando investigação mediante ressarcimento e cumprimento de condições legais. O acordo é previsto em lei, juridicamente legítimo e absolutamente legal. Mas convém dizer, com alguma pedagogia, que ele não equivale a absolvição nem funciona como certificado de virtude. Trata-se de uma solução administrativa para um problema concreto, não de um selo de inocência plena. Diante disso, seria razoável esperar que os irmãos Oliveira utilizassem a concessão pública de rádio que controlam para explicar esse fato com clareza ao seu ouvinte, sobretudo ao seu eleitorado. Explicar o que é um acordo dessa natureza, por que ele existe e quais são seus limites. Mas não é esse o caminho escolhido. Opta-se por deslocar o foco, atacar adversários e rotular Aliel Machado pelo suposto “crime” de ser petista, mesmo ele nunca tendo sido filiado ao Partido dos Trabalhadores. O rótulo pode ser útil para o discurso, mas não resiste ao menor esforço de checagem. E checagem, hoje, é esporte popular. O resultado é um paradoxo político quase constrangedor. A rádio que se imagina formadora de opinião acaba funcionando como fornecedora involuntária de conteúdo para quem sabe usar as redes sociais. Assim como aconteceu em 2024, o ataque vira combustível, o discurso vira prova e a tentativa de desgaste se converte em engajamento do outro lado. Sem perceber, repete-se o erro que ajudou a eleger quem se queria derrotar. Tudo isso remete a uma máxima antiga, frequentemente esquecida nos estúdios e nos gabinetes: tudo me é permitido, mas nem tudo me convém. Nem toda ação legal é politicamente inteligente. Nem toda narrativa repetida se transforma em verdade. E nada envelhece mais rápido do que a palavra dita sem lastro. O mais impressionante é a incapacidade de aprendizado. A estratégia que falhou em 2024 reaparece em pleno 29 de dezembro de 2025, às portas de um novo ano eleitoral. Repete-se o método, repete-se o discurso e repete-se a aposta na confusão como ferramenta política. Como se o erro, quando insistido com convicção, pudesse virar acerto. Na boca de 2026, insistem em agir como se a narrativa fosse mais forte que os fatos. Mas contra fatos, convenhamos, não há argumentos. Nem rádio, nem discurso, nem narrativa que se sustente.

Ponta Grossa cresce, amadurece e muda de patamar

Os novos dados do PIB dos municípios, divulgados agora em 2025 com ano-base 2023, ajudam a confirmar um movimento que, em Ponta Grossa, já vinha sendo sentido no cotidiano, mas que agora se apresenta com clareza nos números. A cidade deixou de ser apenas uma economia em crescimento para se tornar uma economia em consolidação. Em 2023, o PIB ponta-grossense chegou a R$ 25,58 bilhões. À frente estão Londrina, com R$ 27,99 bilhões, e Maringá, com R$ 27,81 bilhões. A diferença, que por muitos anos foi larga e confortável para essas cidades, hoje é curta, mensurável e, sobretudo, real. Não se trata mais de promessa ou expectativa. Trata-se de trajetória É importante explicar, de forma simples, o que esse número representa. PIB é tudo o que uma cidade produz em riqueza. Está ali a indústria, o comércio, os serviços, a logística, a construção civil, os empregos e a renda que circula. Quando o PIB cresce, mais empresas se instalam, mais pessoas trabalham, mais dinheiro gira e mais recursos retornam ao poder público em forma de serviços. Não é um dado distante da vida das pessoas. Ele se reflete no emprego, na renda e nas oportunidades que surgem. O que torna o caso de Ponta Grossa especialmente relevante não é apenas o valor atual, mas a forma como ele foi construído. Entre 2006 e 2023, o PIB da cidade cresceu cerca de 484%. Em termos práticos, a economia ponta-grossense ficou quase seis vezes maior em 17 anos. Mais importante do que o tamanho desse crescimento é sua regularidade. Não houve quedas abruptas, longos períodos de estagnação ou saltos artificiais seguidos de recuo. Ponta Grossa atravessou diferentes ciclos econômicos nacionais, crises e até a pandemia mantendo crescimento contínuo. Isso caracteriza um desenvolvimento estrutural, baseado em uma economia diversificada e menos vulnerável a choques isolados. Esse tipo de crescimento não acontece por acaso. Ele depende de planejamento, previsibilidade, capacidade técnica e continuidade administrativa. Nos últimos cinco anos, Ponta Grossa viveu algo pouco comum em sua história recente: estabilidade de gestão aliada a profissionalização da máquina pública. Elizabeth Schmidt assumiu a prefeitura em 2021, conduziu o primeiro mandato até 2024 e foi reconduzida, iniciando um novo ciclo em 2025. Mais do que a continuidade política, o período foi marcado por uma condução administrativa firme, com metas claras e valorização do trabalho técnico das secretarias. Nesse processo, o papel dos secretários municipais foi decisivo. A Prefeitura passou a operar com maior integração entre planejamento e execução, e um exemplo claro disso está na Secretaria de Infraestrutura e Planejamento. A pasta deixou de ser apenas operacional para assumir protagonismo estratégico, incorporando visão de longo prazo, modernização de processos, qualificação técnica e maior capacidade de diálogo com investidores, órgãos de controle e a própria sociedade. O preparo e a modernização trazidos pelos últimos secretários deram à gestão mais eficiência, previsibilidade e agilidade, fatores essenciais para destravar obras, organizar a cidade e criar um ambiente favorável ao desenvolvimento. PIB não se cria por decreto, mas é impossível ignorar que uma administração organizada, com secretariado técnico e planejamento consistente, cria as condições para que a economia floresça. Em Ponta Grossa, isso se traduziu em projetos que saem do papel, em infraestrutura que acompanha o crescimento e em uma cidade mais preparada para receber novos investimentos. É claro que toda cidade convive com disputas políticas. Há sempre quem prefira dedicar energia a interesses próprios, agendas pessoais ou conflitos que pouco entregam à população. Não é necessário citar nomes. A sociedade percebe. O que os números mostram é que, enquanto alguns trabalham para si, a gestão municipal manteve o foco na cidade. E Ponta Grossa, como organismo coletivo, seguiu avançando. Esse avanço não aparece apenas em discurso, aparece em dado oficial. Hoje, Ponta Grossa já superou economias que antes estavam à sua frente, consolidou-se entre as maiores do interior do Paraná e encostou definitivamente em Londrina e Maringá. Isso não significa que a disputa esteja vencida. Significa algo mais relevante: ela existe. Até poucos anos atrás, essa possibilidade sequer era considerada. Agora, faz parte do debate real sobre o futuro econômico do estado.A partir desse ponto, a discussão muda de nível. Não se discute mais se Ponta Grossa cresce, porque ela cresce. A questão passa a ser se esse crescimento será sustentado e bem administrado. Os números indicam que a cidade está pronta para brigar de perto pelo segundo lugar econômico do Paraná. O desafio agora é manter planejamento, capacidade técnica e responsabilidade administrativa para que esse avanço continue se traduzindo em oportunidades concretas para quem vive aqui. Porque, no fim das contas, PIB não é estatística fria. É emprego, renda, desenvolvimento e futuro.

Contra fatos não há narrativas, nem argumentos

Semana passada esta coluna tratou das narrativas, essas criaturas políticas que caminham soltas por aí, repetidas com tanta convicção que às vezes chegam a acreditar em si próprias. Pois a semana mal tinha virado a esquina e Ponta Grossa decidiu oferecer um exemplo prático. Bastou um vídeo do secretário Sandro na RPC para entendermos que certas narrativas, além de frágeis, têm prazo de validade curto. Não por falta de entusiasmo, mas porque tropeçam na realidade antes mesmo de aprender a andar. A prefeita Elizabeth, talvez cansada de assistir à cidade virar palco de versões improvisadas, fez o que raramente se vê na política: abriu a gaveta, empilhou os documentos e colocou tudo diante da câmera. Projeto básico, executivo, protocolos, prazos. Era papel o bastante para derrubar qualquer discurso inflamado, por mais criativo que fosse. Contra fatos não há discussões e é curioso observar como algumas falas se desfazem no ar quando confrontadas com uma simples folha assinada. Documento é um tipo de adversário ingrato: não se emociona, não muda de ideia, não depende de audiência. Apenas existe. Enquanto isso, Sandro segue tentando vestir o figurino de quem denuncia o improviso alheio. Mas figurino sem costura não para de pé. Se há irregularidades, atrasos, falhas ou precipícios burocráticos, que faça o óbvio e mostre também os seus documentos. A cidade adoraria ver pastas, protocolos, carimbos e evidências materiais, assim como viu da prefeita. Até segunda ordem, apenas um lado apresentou papéis e o outro apresentou falas. E discurso sem papel é igual promessa sem prazo: só existe na imaginação de quem o formula. Convém lembrar, sem ironia, que os pedidos apresentados pela prefeita não são dela. São da população. Aquela mesma população que também escolheu Sandro como deputado federal, antes de ele decidir, por conta própria, trocar Brasília por uma secretaria estadual. A cadeira mudou, mas a responsabilidade não expirou. Se ele não quer acolher as solicitações da prefeita, que ao menos acolha as da cidade que o elegeu. Obras paradas não afetam gabinetes; afetam pessoas que dependem delas. E o crescimento de Ponta Grossa não pode ficar condicionado ao humor de quem deveria zelar por ela. No fim, a semana pode ser resumida com a simplicidade cruel dos fatos: de um lado, documentos; do outro, versões procurando se impor como realidade. E como dizem, nada envelhece mais rápido que a palavra dita sem lastro. A verdade é que nenhuma narrativa resiste quando confrontada com um calhamaço protocolado. Se ainda quiserem brincar de versões, que tragam provas à mesa. Porque contra fatos não há narrativas, nem argumentos.

Narrativas vs. Realidade

Há quem diga que o Brasil é uma terra movida por fé, futebol, feijoada e carnaval. Discordo. O Brasil é movido por narrativas, por histórias tão bem contadas, ou não, que de tanto se propagarem acabam virando verdades absolutas, ou não. Há séculos sobrevivemos de versões criativas dos fatos, enfeitadas com tanta convicção que, quando a realidade tenta participar, pedem a ela que aguarde um instante, porque a história ainda não terminou. Nos últimos anos, então, as narrativas deixaram de ser coadjuvantes e pediram protagonismo. Tomaram a palavra, a praça e os trending topics. Viramos experts em defender o indefensável com uma naturalidade que faria inveja aos roteiristas do finado Zorra Total. Nada, porém, supera o enredo recente envolvendo o ex-presidente Jair Bolsonaro e sua agora célebre tornozeleira eletrônica. O país assistiu, perplexo, ao desfile de justificativas que dariam um excelente episódio de O Fantástico Mundo de Jair ou um capítulos inteiros dos humorísticos de Chico Anysio ou Jô Soares, caso ele resolvesse escrever, de onde estão, sobre o atual surrealismo político tropical. Primeiro, disse Jair que ouviu vozes. Não especificou se eram das Forças Armadas, de Carluxo narrando em off seu próximo plano mirabolante ou se de sua consciência pedindo parase reinventar, já que quase nada tem dado certo ultimamente. Depois, alegou que mexeu na tornozeleira por curiosidade. Como quem abre a geladeira às três da manhã só para conferir se a luz ainda funciona, ele resolveu verificar se o objeto que fiscaliza sua liberdade tinha, por acaso, um manual secreto. E, num momento de rara sinceridade, confessou ter usado uma máquina de solda. O Brasil é tão criativo que até suas tentativas de fuga eletrônica são artesanais. Se tivesse dado certo, provavelmente diriam que não foi ele: foi “um conhecido seu”, aquele mesmo, mais secreto que as Emendas PIX. A narrativa, nesse caso, tentou superar a física, o direito e a lógica. Perdeu feio. A tornozeleira dura, objetiva, factual venceu por W.O. a fraca cognição.  Mas, como bons brasileiros, preferimos sempre acreditar na melhor versão. Ou na pior, desde que seja divertida. E já que estamos falando de narrativas, impossível não comentar a mais tropical delas: a do futebol. O brasileiro consegue reescrever qualquer partida com a precisão de um roteirista. E, claro, chegamos à final da Libertadores entre Flamengo e Palmeiras. A narrativa palmeirense, muito bem lapidada, gira em torno da possível expulsão de Erick Pulgar. Confesso: mesmo sendo flamenguista, acho que deveria ter sido expulso. O VAR ali perdeu a chance de aparecer mais que o Galvão Bueno agarrado no pescoço do Pelé. Curioso como a história contada nunca passa pelo óbvio: o Palmeiras só esboçou algum ataque depois de tomar o gol. Antes, parecia que estava esperando autorização por escrito para cruzar o meio-campo. O torcedor alviverde, porém, prefere acreditar na tese da “partida injusta”, do “detalhe que mudou tudo”, do “se o juiz tivesse…”. E o rubro-negro, claro, acredita na tese da justiça divina, que sempre coincide com o placar favorável. No final é isso: narrativas. Cada um escolhe a sua, adefende como verdade absoluta e dorme tranquilo, embalado não pelos fatos, mas pelo conforto da própria versão daquilo que lhe é mais conveniente. Talvez o Brasil só precise aprender uma coisa: a realidade não tem obrigação de concordar conosco.Mas que bom seria se tivesse, né?

FAÇA O QUE DIGO, MAS NÃO FAÇA O QUE EU FAÇO

Florianópolis decidiu montar uma barreira invisível.Chamam de triagem, mas o nome é o de sempre: filtro. O prefeito Topázio Neto, num surto de zelo administrativo, criou um posto na rodoviária para identificar quem chega à cidade sem emprego ou moradia e, se for o caso, “dar passagem de volta”. É a política do “você não é bem-vindo disfarçada de assistência social”. Pouco tempo depois, o governador Jorginho Mello resolveu carimbar a metáfora com humor duvidoso. Publicou nas redes um “visto de SC”, como se o estado fosse uma ilha soberana que concede ou nega permissão de entrada. O gesto serviu para reforçar a retórica da exclusão, um tipo de provincianismo travestido de ordem. Mas eis que o discurso se enrola nas próprias fronteiras.Enquanto migrantes pobres são “devolvidos” e voluntários precisam de alvará para entregar marmitas, o clã Bolsonaro resolve que Santa Catarina é um bom porto para ancorar seu projeto de poder. Carlos Bolsonaro, vereador do Rio de Janeiro, já anunciou a intenção de disputar o Senado catarinense em 2026. De repente, o mesmo estado que se fechava para quem chega sem vínculo abre os braços para um candidato importado. A régua da seletividade muda de mãos. “Faça o que digo, mas não faça o que eu faço.” O bordão moralista encaixa-se como luva. Quando o visitante é um migrante vulnerável, sem emprego nem casa, é “problema social”. Quando o forasteiro é um político influente, sem domicílio eleitoral ainda regularizado, é “renovação”. É curioso como o discurso sobre “preservar a cultura local” desaparece quando o que vem de fora tem sobrenome forte. A xenofobia social vira hospitalidade política.Santa Catarina, nesse enredo, parece uma cidade medieval: fecha as muralhas para o povo, mas abre o portão principal quando chega o mensageiro do rei. Há um simbolismo perigoso nessa contradição. O mesmo poder público que se sente autorizado a devolver pobres às suas cidades de origem e restringir a distribuição de comida em praça pública não hesita em importar um candidato de outro estado.A mobilidade humana vira problema quando é social; vira estratégia quando é eleitoral. O “visto de SC” virou, afinal, passaporte seletivo. Não serve para quem foge da fome, mas vale ouro para quem foge da rejeição nas urnas cariocas. E no meio de tudo isso, sobra o povo catarinense, aquele que paga impostos, enfrenta o custo de vida e agora precisa decidir se o estado é uma fortaleza ou um palanque. Florianópolis, capital das contradições, parece ter esquecido que a história da ilha começou justamente com gente que veio de fora. Portugueses, açorianos, gaúchos, paranaenses, nordestinos: todos migraram para tentar uma vida melhor. Mas no Brasil de hoje, a mobilidade só é livre quando convém. Para os pobres, triagem.Para os poderosos, tapete vermelho.

Quando o Lago Transborda Vulnerabilidade

O Lago de Olarias é bonito demais para carregar tanto desconforto. A água, que reflete o céu e as luzes da cidade, também espelha o comportamento de quem o cerca. E o reflexo, ultimamente, anda turvo. Entre risos que se transformam em gritos e um animal que perdeu a vida onde deveria encontrar abrigo, o lago parece gritar em silêncio: há algo errado com a nossa forma de conviver. Dois acontecimentos diferentes se cruzam no mesmo cenário e apontam a mesma ferida. De um lado, uma confusão que começou banal e terminou em tumulto. De outro, a morte de uma capivara que vivia livre às margens, símbolo manso de um espaço que deveria unir gente e natureza. Em ambos os casos, o denominador comum não é apenas a violência, mas a sensação de vulnerabilidade que se instala quando o espaço público deixa de ser encontro e passa a ser incerteza. Essa vulnerabilidade se tornou um estado. O lago, que nasceu como refúgio, hoje transborda vulnerabilidade. Ela se infiltra nos gestos, nas conversas, na cautela de quem passeia e já não sabe se está em um parque ou em um risco. E o mais curioso é que, ali mesmo, existe um posto fixo da Guarda Municipal, presença que deveria bastar para garantir tranquilidade. Ainda assim, a confusão aconteceu. Ainda assim, o animal morreu. Isso evidencia a diferença entre vigiar e proteger e revela que confiança comunitária não se impõe, se cultiva. Esse cultivo passa por hábitos que parecem pequenos, mas constroem ambientes inteiros. O Lago de Olarias nasceu como promessa de convivência, porém o que se vê com frequência é o oposto: lixo que fica pelo caminho, atitudes que desconsideram o outro, uma ocupação que trata o bem comum como cenário descartável. O problema não está nas margens nem na água. Está na ideia, cada vez mais presente, de que tudo pode acontecer e ninguém realmente responde por nada. A isso se soma a cultura do excesso de volume. Música alta em diversos bares e até eventos com queima de fogos espalham um ruído que não é apenas incômodo, é agressivo. Afeta quem quer conversar, descansar ou simplesmente contemplar a paisagem. E fere também os animais: cães com tutores ou não, aves que fazem seus ninhos, a fauna de modo geral que se acostumou a dividir o espaço com a gente. O som contínuo e as explosões dos fogos podem provocar estresse, fuga e desorientação. Vale a pergunta que a cidade precisa se fazer sem medo de parecer óbvia: um parque como o Lago de Olarias é ambiente para música alta? Talvez caibam limites de horário e de decibéis, zonas de silêncio e alternativas mais civilizadas de celebração, como fogos sem estampido. O lazer agradece, a saúde agradece, a natureza agradece. Nesse contexto, a morte da capivara não é apenas um acontecimento triste. Ela se torna símbolo. Quando colocada ao lado da confusão humana, revela que a mesma vulnerabilidade atravessa a natureza e o convívio social. São episódios distintos que dizem a mesma coisa: desaprendemos a nos sentir seguros uns com os outros e com o que nos cerca. Não é falta de estrutura. É falta de vínculo. O lago tem tudo o que uma cidade precisa para se orgulhar de si mesma: beleza, acesso, presença constante de vigilância. O que lhe falta é confiança. A confiança de quem frequenta, de quem observa, de quem zela. A confiança que nasce quando o espaço público deixa de ser apenas cenário e volta a ser comunidade. O lago não fala, mas responde. Mostra o quanto a insegurança se infiltra até nos lugares feitos para descansar a alma. Quando o lago transborda vulnerabilidade, não é a água que sai do leito. É o sentimento de pertencimento que se perde pelas bordas. Ponta Grossa tem, no Lago de Olarias, um de seus retratos mais bonitos. E também um dos mais sinceros. Ele nos lembra, com sua serenidade ferida, que segurança não é patrulha, é respeito. Que o cuidado não se mede por câmeras, mas por presença. E que a beleza de um espaço não depende da paisagem, mas da conduta de quem o habita. Enquanto houver silêncio, ele continuará refletindo. E talvez um dia, quando o olhar coletivo voltar a confiar, o lago volte a espelhar aquilo que um dia sonhou ser: um lugar de encontro, e não de alerta.